Os padres da Igreja Conciliar devem ser “reordenados” ao virem para a Tradição?

sábado, 15 de janeiro de 2011

Dom Fellay em ordenação na Argentina

Textos essenciais em tradução inédita – XLVII
Por aciesordinata

Os padres da Igreja Conciliar devem ser “reordenados” ao virem para a Tradição?
Pe. Peter Scott, da FSSPX

A partir do original contido no sítio oficial da FSSPX:
http://www.sspx.org/miscellaneous/conditional_ordination.pdf


Mais e mais padres ordenados no rito novo estão se voltando para a Missa tradicional. Porém, como já se passaram cerca de quarenta anos desde a introdução do novo rito de ordenação, alguns católicos tradicionais questionam a validade da ordenação desses padres e hesitam em deles receber os sacramentos. É verdade que, na prática, cada caso é diferente e deve ser decidido pelos superiores.
Todavia, a seguinte explicação dos princípios que formam a base dessas decisões pode ser de ajuda para entendê-las.

1) Os três sacramentos que conferem caráter não podem ser repetidos.

Este princípio já estava estabelecido, com respeito ao sacramento do Batismo, na epístola do Papa Santo Estêvão I a São Cipriano, condenando a prática deste de rebatizar hereges ao recebê-los na Igreja. Isso também foi definido pelo Concílio de Trento, que declarou um anátema contra quem defende que os três sacramentos que imprimem marca indelével – a saber, o Batismo, a Confirmação e as Ordens Sagradas – possam ser repetidos (Seção VII, Cânon 9, Dz. 852).

2) Quando se trata da validade dos sacramentos, somos obrigados a seguir posição “tuciorista” [de “tutior pars” (ndt)], isto é, a linha de ação mais segura possível.

Não podemos – como somos por vezes obrigados a fazer noutras questões morais – escolher uma opinião menos certa, chamada pelos teólogos moralistas de maneira simplesmente provável de agir, a qual poderia pôr em dúvida a validade dos sacramentos. Se pudéssemos seguir um modo de agir que tem menos certeza, correríamos o risco de grave sacrilégio e incerteza concernente aos sacramentos, o que poria em grande perigo a salvação eterna das almas. Mesmo os teólogos “probabilistas” laxos admitiram esse princípio com respeito ao Batismo e às Ordens Sacras, já que a opinião contrária foi condenada pelo Papa Inocêncio XI, em 1679. Inocêncio XI condenou a posição de que é permitido, “na confecção dos sacramentos, seguir uma opinião provável acerca do valor do sacramento, ficando abandonada a opinião mais segura… Portanto, não se pode fazer uso de opiniões prováveis na confecção do Batismo e das Ordens sacerdotais e episcopais.” (Proposição 1.ª condenada e proibida por Inocêncio XI, Dz. 1151).

Consequentemente, é proibido aceitar uma ordenação provável, ou provavelmente válida, para a subsequente confecção dos sacramentos. É preciso ter a maior certeza moral possível, assim como nas outras coisas necessárias para a salvação eterna.

Os próprios fiéis entendem esse princípio, o qual é, de fato, parte do “sensus Ecclesiae”, o espírito da Igreja. Eles não querem partilhar de ritos liberais e modernistas e têm aversão a receber os sacramentos de padres ordenados nesses ritos, pois não podem tolerar dúvida nessas questões. É por essa razão que eles dirigem-se aos superiores, para garantir a validade.

3) Dúvida negativa deve ser desprezada.

Este axioma é aceito por todos os teólogos moralistas. Dúvida negativa é uma dúvida que não está baseada em razão alguma. É a pergunta “e se…?” que frequentemente fazemos sem absolutamente nenhuma razão. Uma dúvida assim não pode enfraquecer a certeza moral e não é razoável (cf. Prummer, Manuale Theologiae Moralis, I, §328). Consequentemente, não podemos questionar a validade de um sacramento como o de Ordens Sagradas sem ter razão positiva para tanto, ou seja, razão para crer que possa haver algum defeito num dos três elementos necessários para a validade: matéria, forma e intenção.

4) Quando surge dúvida na administração de um sacramento que não pode ser repetido, é possível e mesmo obrigatório reiterar o sacramento “sub conditione”, isto é, sob a condição de [= “para o caso de” (ndt)] ter sido inválido da primeira vez.

Desse modo, tanto a certeza moral sobre a administração do sacramento é adquirida, como o sacrilégio da simulação de sacramento já administrado é evitado. Fala-se disso com frequência nas rubricas do Rituale Romano, por exemplo no caso de convertidos adultos da heresia, havendo dúvida positiva quanto à validade do seu Batismo, ou mesmo crianças enjeitadas que “devem ser batizadas condicionalmente, a não ser que haja certeza, pela devida investigação, de que já foram batizadas”. A condição é exprimida como segue: “se não és batizado…”. Na realidade, o costume antes do Vaticano II era batizar todos os adultos convertidos do protestantismo, na impossibilidade de garantir com certeza moral a forma, ou intenção, ou simultaneidade da matéria e forma necessárias para haver certeza da validade. Assim também, é costume administrar condicionalmente o sacramento da Confirmação aos confirmados no novo rito, no caso frequente de que uma válida forma e intenção não possa ser verificada com certeza.

Em circunstâncias semelhantes, não há sacrilégio em reiterar condicionalmente uma ordenação sacerdotal, como fez o próprio Arcebispo Lefebvre muitas vezes.

5) A matéria e a forma do rito latino de ordenação sacerdotal introduzido pelo Papa [sic (ndt)] Paulo VI em 1968 não [sic (ndt)] estão sujeitas a dúvida positiva.

São elas, com efeito, praticamente idênticas àquelas definidas pelo Papa Pio XII em 1947 na Sacramentum Ordinis. (Nisso, a ordenação sacerdotal difere do sacramento da Confirmação, o qual faz uso, no rito novo, de uma forma totalmente diferente e variável, cuja validade tem sido questionada.)

Contudo, essa certeza moral pode não existir, necessariamente, com as traduções vernáculas da forma, que teriam de ser conferidas, para excluir toda a dúvida positiva. Uma mudança desse tipo foi a tradução provisória, pela ICEL [International Commission on English in the Liturgy = Comissão Internacional para o Inglês na Liturgia (ndt)], da forma mesma, substituindo a expressão tradicional “Conferi a dignidade do sacerdócio” por “Dai a dignidade do presbiterado”. Michael Davies comenta: “Em países anglófonos, nunca se fez referência ao sacerdócio como presbiterado” (The Order of Melchisedech [A Ordem de Melquisedeque], 1.ª ed., p. 88). Nem sempre é fácil determinar qual tradução para o inglês foi empregada, e se ela induz ou não a uma dúvida positiva.

Não de modo infrequente, o Arcebispo Lefebvre é citado declarando que a Missa Nova é uma Missa bastarda, e que o mesmo pode ser dito dos novos ritos dos sacramentos, como as Ordens Sacras. Como podem Missa e sacramentos tais serem válidos? Na realidade, a expressão é tradução pobre do francês “messe bâtarde”, que é corretamente traduzida como “Missa ilegítima”, ou “ritos ilegítimos”, sendo fruto de união adulterina entre a Igreja e a Revolução, e não tendo a expressão francesa a força pejorativa da equivalente em inglês. Essa expressão salienta a natureza ilícita de um tal compromisso, mas não tem repercussão direta sobre a validade dos ritos. Ele explicou isso durante o sermão que deu em Lille em 1976:

“A Missa Nova é uma espécie de Missa híbrida, que não é mais hierárquica; é democrática, nela a assembleia toma o lugar do padre, e assim não é mais a verdadeira Missa que afirma a realeza de Nosso Senhor.” (A Bishop Speaks [Um Bispo Fala], Angelus Press, p. 271).

É por essa razão que ele chamou a Missa tradicional de “verdadeira” Missa, não tencionando por aí questionar a validade das Missas celebradas no novo rito.

Os novos ritos de ordenação são semelhantemente ilegítimos, pois não expressam adequadamente a Fé Católica no sacerdócio. Ao escrever muito vigorosamente contra eles, o Arcebispo Lefebvre não tencionava declarar sua invalidez. Ele declarou muito claramente, na Carta Aberta aos Católicos Perplexos, citando partes da cerimônia que, certamente, não são parte da forma do sacramento e, por conseguinte, não são necessárias para a validade, que uma tal cerimônia destrói o sacerdócio:

“Tudo está ligado; abalando-se a base do edifício, se o destrói inteiramente. Não mais missa, não mais sacerdotes. O ritual, antes de ser reformado, fazia o bispo dizer: ‘Recebei o poder de oferecer a Deus o Santo Sacrifício e de celebrar a Santa Missa, tanto pelos vivos como pelos mortos, em nome do Senhor’. Ele havia previamente benzido as mãos do ordenando ao pronunciar estas palavras: ‘A fim de que tudo que elas abençoarem seja abençoado e tudo o que consagrarem seja consagrado e santificado…’ O poder conferido é expresso sem ambiguidade: ‘Que eles operem para a salvação de vosso povo, e pela sua santa bênção, a transubstanciação do pão e do vinho no corpo e no sangue de vosso divino Filho.’ O bispo diz agora: ‘Recebei a oferenda do povo santo para apresentá-la a Deus.’ Ele faz do novo sacerdote antes um intermediário do que o detentor do sacerdócio, do que um sacrificador. A concepção é toda diferente.”
[Trad. br., com leves retoques, extraída da edição que se encontra no site da Permanência. (ndt)]

Apesar dessas palavras tão firmes, o Arcebispo teve isto a dizer: “A ‘matéria’ do sacramento foi preservada: é a imposição das mãos que se dá a seguir, e a ‘forma’ igualmente: são as palavras da ordenação” (Ibid.). A destruição de que ele está falando é a da Missa como ela deve ser e do sacerdócio como ele deve ser. A intenção dele é, consequentemente, frisar que é a noção católica do sacerdócio que é destruída, não necessariamente a validade do sacramento de Ordens Sagradas.

Salve Maria!


Acima uns excertos sobre o texto referente ao link indicado da FSSPX (Pe. Peter Scott). Achei este texto extremamente interessante e por isto resolvi dividi-lo com vcs leitores do Blog Santa Mãe de Deus!. Apesar d'eu não fazer parte da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, confesso que tenho por eles grande admiração.

Sigamos firmes, porém de olhos bem abertos!

Fiquemos com Deus!
.

1 comentários:

VIRGEM DE GUADALUPE disse...

O espírito "ecumênico" continua a paralisar a Igreja, tirando sua ousadia, enfraquecendo suas decisões e atolando o mundo na situação atual...Nossa Senhora em Fátima não foi "ecumênica" e pediu a CONSAGRAÇÃO da Rússia ao seu Imaculado Coração, não fizeram com "medo ecumênico" de desagradar aos russos e protestantes, ficamos com as consequencias... não adianta reunião se não decidem nada de concreto, coloquem em Prática a mensagem de Fátima, consagrem a Rússia, proclamem um Ano Mariano, levem Nossa Sra. de Fátima para peregrinar nesses lugares, propaguem o Rosário e a prática dos primeiros sábados e verão mudanças concretas...

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Salve Maria!

Que o Espírito Santo conduza suas palavras. E que Deus nos abençoe sempre.

***Caso o comentário seja contrário a fé Católica, contrário a Tradição Católica SERÁ DELETADO, NEM PERCA SEU TEMPO!
***Para maiores esclarecimentos: não sou adepta deste falso ecumenismo, não sou relativista, não sou sincretista, não tenho a mínima vontade de divulgar heresias; minha intenção não será outra a não ser combater tudo que cito acima!

Por fim, penso que esclarecidas as partes, que sejam bem vindos todos que vierem acrescentar algo mais neste pequeno sítio.