A Palavra do Sacerdote - A GRANDE CRISE NO OCIDENTE.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011



Cônego José Luiz Villac

Pergunta — Ao explicar a existência de antipapas na História da Igreja, o Sr. exemplificou com o Grande Cisma do Ocidente. Gostaria de saber como ficaria a situação desse antipapa no caso de ele estar de boa-fé, como admite a Enciclopédia Católica que o Sr. citou: ele ficaria automaticamente excomungado e excluído da Igreja?

Resposta — Nenhuma penalidade canônica na Igreja (excomunhão, interdito, suspensão) se aplica a alguém que comete um erro ou falta, mesmo gravíssima, se tiver agido autenticamente de boa-fé. E isto vale também para a eventualidade de um antipapa que de boa-fé se tenha proclamado Papa. Julgar dessa boa-fé é fácil para Deus — que conhece todas as coisas, até nossos pensamentos mais íntimos — mas pode ser muito complicado para nós homens, que temos de tomar posição perante fatos concretos nem sempre muito claros.

Sirva mais uma vez de exemplo o Grande Cisma do Ocidente, que parece ter despertado especial interesse entre os leitores de A palavra do Sacerdote, publicada na edição de março de “Catolicismo”.

Em primeiro lugar, chama-se Cisma do Ocidente por contraposição ao Cisma do Oriente. Porém, há uma grande diferença na natureza dos dois cismas.

No caso das igrejas orientais que se separaram de Roma no ano de 1054 (Cisma do Oriente), havia a negação explícita do primado do Papa e a pretensão de que elas podiam reger-se por si mesmas (por isso, elas se designam como igrejas autocéfalas). Existem até hoje, como a igreja cismática grega, a igreja cismática russa etc., conhecidas também como Igrejas Ortodoxas (I.O.).

No caso do Grande Cisma do Ocidente, todos estavam de acordo em que deveria haver um — e só um — Papa. A discordância estava em qual dos dois eleitos era o sucessor legítimo de Pedro.

Se hoje praticamente não há mais dúvidas, na historiografia católica, de que o Papa autêntico era Urbano VI, e de que Clemente VII era antipapa, para um grande número de contemporâneos a questão não era tão clara. O que explica que havia santos — e grandes santos — dos dois lados em que se cindiu a Igreja. Do lado do Papa de Roma, Santa Catarina de Siena, grande mística e vidente, da qual já falamos na edição anterior de Catolicismo; com o antipapa de Avignon estava São Vicente Ferrer, grande orador e taumaturgo (operava numerosos milagres). Por esses dois exemplos o leitor já vê a enorme confusão que então se armou na Igreja.

  • A Cristandade dividida
Em toda essa questão, desempenhou um papel importante o Cardeal espanhol Pedro de Luna, o qual foi, a princípio, defensor intrépido de Urbano VI. Convicto de que sua eleição fora legítima, e sabedor de que os cardeais franceses estavam animados de intenções cismáticas e queriam voltar para Avignon, o Cardeal de Luna juntou-se a eles por volta do dia 24 de junho, com o fim de dissuadi-los de tal temeridade.

Porém, como comenta o Pe. Villoslada, o pescador acabou sendo pescado. Os cardeais franceses o convenceram de que haviam votado sob coação do povo romano, e de que, portanto, a eleição não fora livre. Tinha sido, pois, ilegítima. Entretanto, a eleição se dera em 8 de abril de 1378, e até quase o fim desse mês todos os cardeais presentes em Roma haviam dado demonstrações inequívocas de acatamento ao novo Pontífice. Se alguma dúvida tivesse havido quanto à eleição, ela fora convalidada pelo comportamento posterior dos cardeais.

Nossa exposição anterior chegara até a instalação de Clemente VII em Avignon, no dia 20 de junho do ano seguinte, exatamente nove meses depois do conclave que o elegeu em Fondi, no Reino de Nápoles (estávamos muito longe ainda dos tempos da aviação e da Internet...). Com a celeridade, pois, que os meios de locomoção e de comunicação da época permitiam, os dois papas apressaram-se (sic!) em enviar embaixadores aos príncipes cristãos, expondo cada qual seus direitos e desacreditando o adversário. A atividade diplomática de Clemente VII era muito mais ágil que a de Urbano VI. Mesmo assim, a parte mais ampla da Cristandade ficara com Urbano VI.

  • O cisma nos reinos e nas almas
Descrevamos para o leitor como ficou a divisão geográfica do cisma.

A Itália aderiu quase inteira a Urbano VI, com exceção da Sabóia, cujos duques eram parentes do antipapa Clemente. O Reino de Nápoles, governado por príncipes franceses, se uniu à França no apoio ao papa avinhonês. Porém, destronada a rainha Joana de Anjou, os napolitanos se alinharam com o Papa de Roma.

Na Alemanha, foi um grande triunfo para Urbano VI o apoio do Imperador; porém os duques Alberto da Baviera e Leopoldo da Áustria apoiaram Avignon. Esta situação não perdurou: ao cabo de poucos anos, o primeiro adotou uma posição neutra e, morto Leopoldo, o partido clementino se desfez.

Luís I, da Hungria, embora parente de Carlos de Anjou, preferiu marchar com o Imperador, a favor de Urbano VI. O mesmo se diga da Polônia e da Lituânia.

As Flandres (hoje incorporadas à França e à Bélgica), cujos interesses comerciais as ligavam à Inglaterra, inimiga da França, acabou por ficar com Urbano VI.

Por suas dissensões com a Inglaterra, a Escócia abraçou o partido avinhonês. Na Irlanda, embora não completamente dominada pela Inglaterra, predominou largamente o partido urbanista.

Na França, o rei Carlos V inicialmente prestou filial homenagem a Urbano VI, mas convencido pelos cardeais franceses da pretensa ilegitimidade da eleição, determinou que em todas as igrejas de seu reino dever-se-ia reconhecer Clemente VII como “papa e supremo pastor da Igreja”. Tal decisão, contudo, causou escândalo nas universidades francesas, sobretudo na de Paris, que era a maior autoridade teológica e científica do mundo cristão, e a mais universal, pois recebia professores e alunos de todas as nações. O resultado foi que a própria universidade ficou dividida nessa questão eclesiástica, conforme a procedência de seus integrantes, a ponto de, nas disputas escolásticas, ser proibido tocar no assunto.

A Espanha foi um árduo terreno de disputa entre os embaixadores dos dois papas. Seria longo detalhar a situação de cada um dos diversos reinos que então constituíam a Espanha. Alianças políticas com a França levavam a um alinhamento com o antipapa de Avignon. Não obstante, esse alinhamento não foi automático. Foram enviados emissários a Roma e a Avignon, a fim de informar-se in loco dos fatos. Assembléias de Bispos foram reunidas. Foi nesse contexto que o Cardeal Pedro de Luna desenvolveu uma atividade intensa, coadjuvado pelo frade dominicano Vicente Ferrer, já então famoso por suas pregações e milagres. O resultado de toda essa atividade diplomática e eclesiástica foi que os reinos de Castela, Aragão e Navarra se submeteram a Clemente VII. Isso porém não significa que entre os Prelados espanhóis não houvesse defensores empenhados do Papa legítimo, cujos feitos omitimos por brevidade de narração, mas cujos nomes estão inscritos no Livro da Vida.

Em Portugal, as ligações políticas ora com a Inglaterra, ora com o reino de Castela, fizeram com que o país oscilasse entre a obediência a Urbano VI e a Clemente VII. De qualquer modo, os Bispos portugueses, em especial o Deão de Coimbra, levantaram sérias objeções contra o antipapa, interpelando brilhantemente o Cardeal legado Pedro de Luna, este sempre acompanhado por São Vicente Ferrer... Diga-se desde já que este santo desempenhou mais tarde um papel decisivo na solução do cisma, após ter-se convencido de que o Papa legítimo era o de Roma.

O Pe. Villoslada conclui esta parte de sua exposição com palavras mais uma vez muito acertadas: “Com tudo que foi dito, não é fácil delinear o mapa eclesiástico das duas obediências, porque nem sempre estavam bem definidos os limites geográficos. Houve províncias e até nações que começaram obedecendo Roma, para depois passar para Avignon, e vice-versa. Na própria França — muito mais que em outros países clementinos — houve prelados, párocos e frades que perseveraram fiéis a Urbano VI, às vezes até o martírio” (Historia de la Iglesia Católica, BAC, tomo III, pp. 207-208).

Era nossa intenção apresentar hoje o desfecho do Grande Cisma do Ocidente, mas nos pareceu que seria mais instrutivo para o leitor apalpar com as mãos as fissuras que então ocorreram na Cristandade. Assim compreenderá ele melhor as dificuldades pelas quais às vezes Deus permite que a Santa Igreja passe, e em meio às quais é preciso perseverar na Fé, crendo firmemente na promessa de Nosso Senhor, de que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja: “Et portae inferi non praevalebunt adversus eam” (Mt 18, 16).

Fonte: Revista o Catolicismo.

1 comentários:

Sandro de Pontes disse...

Giovana, salve Maria.

Este é um dos melhores textos que li nos últimos anos.

Parabéns!

Sandro

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Salve Maria!

Que o Espírito Santo conduza suas palavras. E que Deus nos abençoe sempre.

***Caso o comentário seja contrário a fé Católica, contrário a Tradição Católica SERÁ DELETADO, NEM PERCA SEU TEMPO!
***Para maiores esclarecimentos: não sou adepta deste falso ecumenismo, não sou relativista, não sou sincretista, não tenho a mínima vontade de divulgar heresias; minha intenção não será outra a não ser combater tudo que cito acima!

Por fim, penso que esclarecidas as partes, que sejam bem vindos todos que vierem acrescentar algo mais neste pequeno sítio.