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Romantismo Alemão ( 6° Post) - veio filosófico

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

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C. O veio filosófico


O terceiro veio formador do Romantismo é de natureza filosófica e está intimamente ligado ao veio religioso, pois vem beber os pensamentos de Jacob Boehme. Com efeito, os filósofos idealistas alemães, Fichte, Schelling e Hegel, adotaram linguagem e idéias dos místicos na exposição de seus sistemas, particularmente as de Mestre Eckart e de Jacob Boehme, como veremos mais adiante. Em todos esses filósofos foi também grande a influência do pietismo e da Cabala.
Historicamente, a ligação entre Boehme e os filósofos do Romantismo alemão fez-se por meio de dois teólogos pietistas: Bengel e Oetinger.

John Albrecht Bengel (1687-1752) foi membro do clero protestante e pietista da Suábia. Escreveu várias obras sobre o Novo Testamento, e especialmente sobre o Apocalipse. A preocupação pietista com os "sinais dos tempos", revelação de Deus na história, e a expectativa do advento do Reino de Deus na terra - o "tempo dos lírios" (o "Lilienzeit" de Jacob Boehme) - levaram Bengel a buscar no Apocalipse e na História o desvendamento do futuro. Para Bengel, Deus revelava-se a si mesmo na História, através de um plano providencial, que era combatido pelo demônio. Bengel chegava às raias do dualismo ao imaginar uma oposição simétrica entre a Santíssima Trindade e uma Maligníssima Trindade infernal que se combateriam na História. Todas as ações dos homens, mesmo as piores, acabariam concorrendo para a realização do plano divino. Em Hegel, um pensamento parecido será expresso na teoria da "astúcia da razão".
"Em Bengel, é Deus que se realiza na História da Humanidade, passo a passo, conforme um plano providencial preciso, visando edificar o seu Reino que efetivamente será atingido no final da História sob o comando de Cristo, no reino de mil anos" (Ernst Benz - op. cit. p. 46).
Esse mesmo autor mostra como o evolucionismo histórico dos místicos e filósofos idealistas alemães tem caráter gnóstico.
"Este processo da auto-manifestação de Deus implica e compreende também sua manifestação no universo; é um processo tanto criador e conservador quanto esotérico. A evolução do universo através dos diferentes reinos da matéria inorgânica, das plantas, dos animais, do homem, aparecem tanto nesse processo teogônico quanto na soteriologia (estudo da salvação humana), que forma uma espécie de prolongamento ou continuação da evolução criadora no reino da História. Hoje, quando há uma discussão apaixonada sobre a evolução soteriológica do Padre Teilhard de Chardin, é preciso lembrar que o termo evolução não foi introduzido primeiramente pelos sábios das ciências naturais do século XIX em torno de Charles Darwin, mas que o termo foi introduzido como um termo teológico e soteriológico pelos teósofos do século XVIII. Foi assim que ele foi adotado pelos filósofos do idealismo alemão, Hegel, Schelling, Baader, como termo soteriológico para descrever o processo teogônico no qual Deus manifesta a si mesmo tanto no universo quanto na soteriologia 'a fim de que Deus seja tudo em todos' (I Cor. XV, 28). Este versículo de São Paulo, que se acha tantas vezes citado por Teilhard de Chardin, é o versículo favorito de Schelling, de Baader, e, antes deles, de Oetinger. Foi Baader quem publicou um escrito sobre "A evolução e o revolucionismo" ou sobre a evolução positiva ou negativa da vida em geral e da vida social em particular nos Anais da Baviera.
Para Bengel, o Apocalipse daria a chave para se compreender a História, assim como também seria a Revelação da própria natureza de Deus. Como Joaquim de Fiore, Bengel procurava fazer paralelismos entre personagens bíblicos e históricos, e dedicou-se a cálculos numéricos para determinar a data do início do Reino de Deus. Acabou concluindo que o reinado da Besta começara em 1143 e, como esse período duraria 666 anos, ele marcou o início do milênio para 1809, tendo mais tarde adiado esse início para 1836.

Friedrich Christopf Oetinger (1692-1782), por sua vez, foi o principal discípulo de Bengel. Estudou em Tubingen, onde se interessou por obras rabínicas e Cabala. Entrou em contato com um grupo cabalista de Frankfurt, ao qual pertenceram o pietista Johann Jacob Schütz e o conselheiro Fende. Este grupo estudava o Zohar e a "Cabala denudata" de Christian Knorr Von Rosenroth. Foi ainda em Frankfurt que Oetinger teve contato com o cabalista judeu Kopel Hecht que, como vimos, o aconselhou a ler Jacob Boehme para conhecer a Cabala.

Como Bengel, Oetinger defende a tese de que Deus se revela na História, especialmente de homens carismáticos como Boehme ou Swedenborg.

Oetinger procurava na História as regras da ação da Providência que permitiriam compreender seguramente a História:
"...regras que se reencontrarão na metafísica histórica do idealismo alemão" (E. Benz - op. cit. p. 44).

No final do processo histórico, Deus seria em cada homem o alfa e o ômega. Haveria então uma grande efusão do Espírito Santo e realizar-se-ia o Reino do Amor, a idade de ouro. Nesse tempo, o homem teria uma "ciência natural" que lhe permitiria compreender perfeitamente a Medicina, o Direito e a Teologia. Schelling dirá a mesma coisa, anos depois.
Oetinger, como todos os teósofos, não acreditava num Deus imutável. Como a Cabala, ele distinguia Divindade e Deus, e não aceitava as processões divinas no sentido Trinitário.

"Logicamente a doutrina cabalística dos Sephiroth conduz Oetinger a criticar o dogma oficial da Igreja a propósito da Trindade; ele acaba por declarar, por isso, que a segunda pessoa da Trindade cristã é, na verdade, a Shekinah (magnificência) tornada homem, enquanto que a identificação da terceira pessoa com o Espírito Santo é devida a uma interpretação errônea da doutrina judaica da Hochmah (Sabedoria). Talvez tais idéias tenham sido inspiradas a Oetinger por Kopel Hecht, que tinha evocado diante dele o caráter estranho dos dogmas cristãos; em todo caso, elas conduziram o autor a evitar, na exposição de sua própria concepção da Trindade, a palavra ‘pessoa’, a fim de que não desse a impressão de triteísmo".

Por isso, Oetinger prefere usar os termos 'sefiroth' ou emanações, e não ‘pessoas’, ao tratar das processões divinas.
Oetinger, como Jacob Boehme e todos os gnósticos, tinha uma concepção dialética do movimento de Deus:

"(...) em seu comentário sobre os sete sephiroth inferiores, Oetinger vai considerar o movimento em Deus, como uma luta entre duas forças contrárias, com uma resolução na perspectiva de uma paz final. O repouso será então o fruto de uma vitória simbolizada pelo nome da sétima sefirá: Netzah. Ora, é esta passagem do estado de guerra ao estado de repouso que Oetinger chamará de actus purissimus. Não se poderia afastar-se mais da noção metafísica de ato puro

Para Oetinger, o Espírito Santo, "aquele que há de vir", o Amor, reuniria não só o Pai e o Filho, mas também Deus com o universo e com todos os homens.
Assim como os cabalistas e, mais tarde, os idealistas, Oetinger considerava que todo espírito sem corpo, ou que não pudesse tê-lo, seria mau. O universo seria o corpo do qual Deus seria a alma. Os conceitos de espírito e matéria seriam correlatos e reversíveis. O espírito seria matéria sublimada. Era em termos alquímicos que Oetinger se expressava:

"O volátil se fixa, e o fixo se volatilisa. Isto significa que o espírito se torna corpo, e o corpo, espírito (...) O perfeito símbolo desta alquimia é Jesus Cristo: em sua pessoa, o espírito revestiu uma forma corporal, e o corpo de carne se espiritualizou com a ressurreição. Esta pessoa é, por excelência, o lugar de encontro entre o espírito e o corpo (...) É universalizando esta verdade que Oetinger declara, de um lado, que tudo é espírito; de outra parte, que tudo o que é espírito, é também corpo".

Estas idéias de que Deus seria a alma do mundo, e de que haveria correspondência entre matéria e espírito, são reencontradas entre os românticos. Segundo elas, a criação teria permitido que a Divindade se refletisse na natureza e, sendo senhora dela, se tornasse Deus e, querendo bem a ela, se tornasse Amor. É isto que explica o culto que os românticos tinham pela natureza.

A natureza seria então boa, enquanto meio necessário para revelar a divindade, embora tivesse sido a sua criação que determinara a existência do mal no próprio Deus. O Reino de Deus viria sanar esse mal, redimindo a natureza e o homem. Nesse Reino, Deus, o Universo e o homem seriam um.

"O Mal, não é a criação em si mesma, como pensavam os gnósticos. O Mal é esta brecha que a Divindade abriu em si mesma para que um mundo distinto pudesse existir. O Reino de Deus é o vazio preenchido. O Reino de Deus exalta a criação em vez de aboli-la. Deus une-se à sua criação na Ekklesia, que é seu corpo espiritual. A alma do Messias, malkulth, é o corpo místico que tem a sutileza da alma com relação à materialidade grosseira, e que é um corpo com relação ao espírito puro".

Oetinger dizia opor-se violentamente aos gnósticos, principalmente a Cerinto, que negava qualquer valor à matéria, mas seu próprio sistema é gnóstico, embora moderado, no que tange ao problema da matéria. Por isso, Déghaye afirma que:
"... a filosofia sagrada de Oetinger deveria ser considerada mesmo como uma gnose anti-gnóstica".

O milenarismo de Oetinger chega até a defender a apocatastasis, isto é, a redenção do próprio demônio, para tornar real a frase: "que Deus seja tudo em todos" (I Cor. 15,28).
Inspirando-se no tempo dos lírios de Boehme e nas teorias de Bengel, Oetinger tem uma concepção do Reino de Deus, ou Reino do Amor, igualitário e comunista, que vai repercutir nos românticos e em Marx.

"Em certo sentido, o quadro da idade de ouro esboçado por Oetinger constitui o molde no qual serão fundidos os esboços do Estado final da sociedade, do Estado ou da sociedade ideal, tais quais nós os encontraremos em Hegel, em Schelling, em Baader, como também em Karl Marx, e é impressionante ver que não só conceitos importantes de Hegel, mas também de Marx figuram na descrição da Idade de Ouro de Oetinger"
Traços característicos desse Reino do Amor de Oetinger são o sacerdócio universal e a igualdade completa dos homens. Por isso, não haverá nesse Reino do Amor propriedade privada. Tudo será possuído em comum.

A terceira condição de felicidade desse Reino é a inexistência de governo e de moeda.
Será o amor que presidirá todas as relações humanas, depois que os homens estiverem libertados da propriedade, e do governo.

Gnose

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

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Salve Maria!

Lendo com atenção os textos já postados sobre o Romantismo Alemão, observamos que a Gnose envolve muito esta fase, também começamos a abrir um leque diante nossos olhos, pois acabamos por ver que gnósticos são muitos dos católicos entre nós! E é esta visão que eu desejo que vcs leitores tenham, a visão de poder enxergar onde estão as más influências do Romantismo Alemão e suas vertentes dentro da Igreja. E pela graça de Deus que vcs possam não cair nesta cilada demoníaca.
Gnose: religião oculta da história (por Orlando Fedeli).
*  *  *
Quando se estuda a gnose entra-se num labirinto cheio de brumas, tentando descobrir segredos que permitirão chegar a um mistério. Não é de estranhar que o tema se preste a confusões.
É pois necessário estabelecer distinções. E uma primeira é entre panteísmo e gnose. Ora, o panteísmo é a doutrina que considera que tudo - inclusive a matéria - é Deus. A gnose, ao contrário, em quase todos os seus sistemas condena a matéria como obra maligna.
Simplificando um tanto o problema, cujos meandros não podem ser examinados nos limites deste artigo, pode-se dizer que o panteísmo representa uma corrente plutôt otimista, enquanto a gnose é pessimista.
O panteísmo é naturalista, monista e tende ao racionalismo.
A gnose é dualista, anti- cósmica e anti-racionalista. Mas essa é uma distinção que deveria em alguns casos ser matizada, porque alguns sistemas gnósticos são ambivalentes, com relação ao mundo material, que é dialeticamente amado e odiado ao mesmo tempo. Por outro lado, há sistemas panteístas que admitem a transformação da matéria em espírito, ao fim da evolução.
Por exemplo, nota-se no sistema panteísta de Plotino uma clara tendência para gnose, embora esse autor neoplatônico tenha até escrito uma obra contra os gnósticos de seu tempo.
Conviria ainda dizer que o panteísmo é uma anti-câmara para a gnose, sistema reservado para espíritos mais tendentes ao misticismo orgulhoso do que ao sensualismo.
*  *  *
Para conceituar a gnose, poderíamos dizer que ela pretende ser "o conhecimento do incognoscível".
Evidentemente, essa conceituação revela uma contradição que é típica da gnose. Conhecer o incognoscível é uma contradição conceitual e lógica. Mas ocorre que a gnose repele a inteligência e a lógica como enganadoras. O verdadeiro conhecimento seria intuitivo, imediato e não discursivo e lógico.
Conhecer o incognoscível, de fato, significa dar ao homem o conhecimento de Deus e do mal, coisas impossíveis de compreender. De fato não podemos compreender ou conhecer a própria essência de Deus que é ser infinito e transcendente, impossível de ser captado por nosso intelecto. Também não podemos entender o mal e o pecado: o mal enquanto ser não existe, e o mal moral não tem razão que o justifique.
Assim, a gnose pretende oferecer ao homem um conhecimento natural que o colocaria em posição de compreender - e portanto superar - a Deus, de compreender a mal, e, ademais, de conhecer sua natureza mais íntima, que seria divina.
A gnose é então a religião que oferece ao homem o conhecimento do bem e do mal.
Ora, sabe-se que a árvore do fruto proibido do Éden era exatamente a árvore do conhecimento ou ciência do bem e do mal (Gen. II,10). Assim, teria sido a gnose a tentação de Adão. Com efeito, a serpente prometeu a nossos primeiros pais que, se comessem o fruto proibido, "seriam como deuses, conhecendo o bem e o mal" (Gen., III,5). A tentação de Adão e Eva foi a de se tornarem deuses. Essa é a grande tentação do homem, que, levado pelo orgulho, como Lúcifer, não admite sua finitude, não aceita sua contingência.
Essa tentação é, de fato, uma revolta anti-metafísica. Ora, é esse um outro modo de conceituar a gnose: uma revolta anti-metafísica.
Se admitirmos essa interpretação da tentação adâmica, teremos que concluir existência uma continuidade da gnose na História. E é o que constatam os estudiosos: a gnose apresenta-se realmente como uma religião ora oculta, ora pública, mantendo porém unidade e continuidade no transcorrer da História.
Ladislao Mittner, ao estudar o pietismo protestante, seita mística e gnóstica oriunda dos tratados de Jacob Boehme e fundada por Spenner liga essa seita a uma única grande corrente gnóstica existente na História.
Para representar a unidade do fenômeno religioso gnóstico, Mittner usa a imagem muito própria e muito cogente do rio cársico.
No Carso, região calcárea da ex-Iugoslávia, há rios que de repente desaparecem na solo extremamente permeável de calcáreo e passam a correr subterraneamente, voltando a aparecer na superfície muitos quilômetros além. Rio cársico é aquele que aparece e desaparece, tornando-se ora visível ora oculto em seu percurso.
Mittner diz que "é quase impossível distinguir o pietismo das muitas outras seitas religiosas da época. Filões singulares do movimento apresentam fenômenos cársicos: aparecem, desaparecem, e, de repente, reaparecem mais além, sem que a identidade do filão possa ser propriamente demostrada".
Assim é a gnose: na história, ela é um fenômeno religioso do tipo cársico.
Essa unidade histórica da gnose através dos tempos e civilizações é constatada por muitos autores. Dennis de Rougemont, por exemplo, escreve:
"Mais perto de nós que Platão e os drúidas, uma espécie de unidade mística do mundo indo-europeu se desenha como em filigrama no plano de fundo das heresias da Idade Média. Se nós abraçamos o domínio geográfico e histórico que vai da Índia à Bretanha, constatamos que uma religião aí se espalhou, para falar a verdade, de um modo subterrâneo, desde o século III de nossa era, sincretizando o conjunto dos mitos do Dia e da Noite tal como eles tinham sido elaborados inicialmente na Pérsia, depois nos segredos gnósticos e órficos e é a fé maniquéia".
Por sua vez, H. I. Marrou atesta:
"(...) da fato, a gnose e seu dualismo pessimista exprimem umas das tendências mais profundas do espírito humano, uma das duas ou três opções fundamentais entre as quais o homem deve finalmente escolher. Claude Tresmontant mostrou bem a permanência da tentação gnóstica, sem cessar reaparecida, sob formas diversas no pensamento ocidental no curso de sua história nos Bogomilas e Cátaros da Idade Média, em Spinoza, Leibnitz, Fichte, Schelling, Hegel. Poder-se-ia continuar esta história além do romantismo alemão e até nossos dias: o destino de Simone Weil é particularmente muito significativo; foi bem o seu neo-gnosticismo que a deteve finalmente na soleira da Igreja e sua herança se reencontrava na obra histórica de sua amiga e discípula Simone de Pétrement".
O tema, além de misterioso e fascinante, é muito atual. Voltaremos a ele, a fim de informar nossos amigos leitores sobre as brumas que envolveram nossa época após o Vaticano II e o fim do Marxismo.


Romantismo Alemão ( 5° Post) - Pietismo

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

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O Pietismo

Desde os primórdios da Reforma, formaram-se duas correntes nesse movimento heterodoxo: uma, mística; e outra, racionalista. O luteranismo oficial representa a segunda corrente, enquanto os movimentos anabatistas (eram pessoas que não concordavam com as práticas católicas e voltavam-se para a bíblia como única fonte confiável sobre Deus, organizando-se e estruturando doutrinas próprias) e milenaristas (os que creem que depois do Apocalipse haverá mil anos de paz, onde Jesus reinará) representam a primeira.

Em Münster, João de Leyde se fez coroar Rei-Messias no cemitério da cidade, e, depois de um reinado de terror, de comunismo e de promiscuidade sexual, Münster, “a Nova Jerusalém", foi tomada de assalto pelas tropas do Bispo da cidade. João de Leyde pereceu na tortura, e, durante séculos, seus ossos ficaram numa jaula de ferro suspensa nas torres da Catedral. Hitler ordenou a destituição dessa jaula, em 1933.

A corrente mística do protestantismo teve seu "profeta" na figura de Jacob Boehme, cujos escritos teosóficos, alquímicos e cabalistas tiveram uma enorme influência na história do pensamento europeu.

Foi da doutrina de Boehme (imagem ao lado) que nasceu o pietismo, religião do "coração", religião do sentimento, oposta ao racionalismo luterano, e do qual nasceriam a filosofia e a escola romântica alemã.

O pietismo teve porém, como fundador propriamente dito, Philipp Jacob Spenner, que, no fim do século XVII, instituiu em Frankfurt "Collegia pietatis", "ecclesiola in Ecclesia", conventículos semi-clandestinos para manter o fervor espiritual dos fiéis que se constituíram em células religiosas, que se multiplicaram na Alemanha.
O pietismo, assim como a anabatismo, os Irmãos do Livre Espírito, e tantas outras seitas místicas, não tem limites definidos. Ele é impreciso como nevoeiro:

1º) porque ele não admitia estrututras e institucionalizações;

2º) porque recusava qualquer dogmatismo. Assim, ele se misturava ecumenicamente com outras seitas protestantes. Mittner compara o pietismo ao afloramento de um rio cársico. Como no Carso, onde os rios afloram e desaparecem na terra, para reaparecer depois quilômetros além, assim também o Pietismo seria um afloramento de um único grande movimento místico que percorre a história.

Por nosso lado, acrescentaríamos que esse grande rio cársico, que ora aparece com um nome, ora volta a ser subterrâneo, para reaparecer com outro nome, mas sempre com as mesmas águas, chama-se Gnose.

O único dogma de que os pietistas faziam questão era o da Redenção por Cristo. A tudo o mais se poderia renunciar em proveito da união dos cristãos. Os pietistas faziam mesmo questão de proclamar o seu espírito de renúncia e de concessão em matéria de fé, porque desejavam veementemente a união de todos os cristãos no amor. Eram absolutamente relativistas e tolerantes. O ecumenismo era a sua felicidade. Se o único dogma de que faziam questão era o da Redenção por Cristo, não se julgue porém que eles o entendiam no sentido comum. Cristo era o Redentor, mas não era Deus. Cristo era, para eles, sobretudo um homem, um irmão, um amigo.

Religião da amizade, o pietismo se preocupava em estabelecer entre o membro da seita e Cristo uma relação de amizade sentimental e igualitária. Para Zinzendorf (imagem ao lado - foi divulgador do protestantismo e fundador da igreja Morávia) um único dogma bastava: o da humanidade de Cristo: a Santíssima Trindade seria formada por "Papai Deus", "Mamãe-Pomba" e "Irmão-Cordeiro". O Espírito Santo, chamado de Mamãe Pomba, era considerado por Zinzendorf como a divina Sofia, ou divina Sabedoria, e a segunda Eva, mãe de todos os crentes. Ora, é curiosa essa confusão do Espírito Santo com a divina Sabedoria, pois que a Sabedoria é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e não a Terceira. Estas denominações do Espírito Santo como a Divina Sofia, Segunda Eva, ou Mamãe Pomba insinuam uma interpretação sexual da Trindade Divina, própria dos movimentos gnósticos. Na Gnose Valentiniana e na Cabala é que se fala numa Sofia inferior apresentada como elemento feminino em Deus.

Para o pietismo, seguidor de Boehme, o mundo era uma emanação da divindade, e o espírito de Deus se achava espalhado em todos os seres do universo. Esse imanentismo levava o pietismo a ter um culto religioso da natureza, a buscar fundir-se no Todo universal, a procurar estabelecer um contato com os outros homens, e mesmo com as coisas, por meio de uma simpatia universal. O pietista vivia dialeticamente, sentindo Deus distante e, ao mesmo tempo, próximo; Deus "absconditus" e Deus manifesto; e vendo o infinito imanente nas coisas finitas.

O homem deveria buscar a Deus no íntimo de seu coração. Deus falaria a cada pessoa através de seus sentimentos. A razão e a vontade deveriam ser combatidas, pois seriam causas de individualização, e empecilhos, portanto, à fusão no Todo Universal. Era preciso "reentrar" em si mesmo, e, para isto, era necessário combater as qualidades pessoais, egoísticas; resistir às imagens ilusórias dos sentidos, fruto da multiplicidade ilusória da vida real concreta (Cfr. L. Mittner- op. cit. p. 47).

A razão, especialmente, impediria o retorno ao Uno divino, pois ela, definindo as coisas, as separa. Também era preciso renunciar à vontade individual, considerada egoísta, para alcançar uma atitude de indiferença, semelhante à dos budistas e dos esotéricos.

O pietista gostava também de padecer, sofrer pacientemente as doces amarguras da vida. Ele não buscava o prazer e a alegria. Não amava os jogos e as diversões, nem a boa comida. Gostava do que é simples. Era um introvertido em contínua auto-análise, buscada como fim em si mesma.

O pietismo era então organizado em células de três pessoas que deviam ter entre si uma amizade "particular", sentimental e mística. Era o que eles chamavam "o trevo". Os três participantes do trevo deviam estabelecer um pacto de amizade, confirmado, muitas vezes, por uma comunhão. O trevo era o primeiro núcleo, ou célula, de um conventículo pietista. O próprio matrimônio era visto como "amizade conjugal", amizade de almas, de fundo religioso. No matrimônio também se formava, muitas vezes, um trevo ou um triângulo filadélfico entre os dois cônjuges e um terceiro elemento que patrocinara ou favorecera o casamento, renunciando o seu amor por um dos cônjuges. Esse terceiro elemento, que sacrificava o seu amor, era como um substituto de Cristo, um vice-Redentor. Esse amor, entre os pietistas, era chamado amor filadélfico, e se opunha ao amor filantrópico preconizado pelos racionalistas, que mandavam amar igualmente todos os homens.

Em consonância com essa concepção, Zinzendorf  renunciou a duas noivas, oferecendo-as a outros pietistas, para convertê-los. Casou-se, depois, e sua mulher lhe deu filhos. Então, ele a deixou para um amigo, enquanto partia para os Estados Unidos com uma "irmã" jovem que ia auxiliá-lo na fundação de uma colônia pietista na América. Quando sua mulher morreu, ele se casou com essa jovem.

A mística pietista, como toda mística gnóstica, incluía elementos sexuais. O processo teosófico exposto por Boehme, originado da Cabala, tem conotações desse tipo. Para Boehme, Adão teria sido um ser andrógino que não se conformando em ser o que era, quis ser o que não era, e, como castigo, Deus teria separado os sexos, criando a mulher do flanco de Adão. Zinzendorf e outros pietistas relacionavam a criação de Eva com a chaga do peito de Cristo. Nas cerimônias nupciais organizadas por Zinzendorf, havia símbolos obscenos relacionados com essa chaga.

Caracteristicamente, Susana Von Klettenberg, que iniciou Goethe na Alquimia, desenvolveu toda uma teoria mística do sangue que ela perdia em suas hemoptises de tuberculosa. Aliás, alquimia e pietismo eram estreitamente ligados.

A célula pietista funcionava como um microcosmo. Atuar nela, seria atuar no macrocosmo. Qualquer modificação na célula acarretaria uma modificação no todo universal, conforme as regras da alquimia.

A vida espiritual pietista procurava também analisar continuamente as manifestações do Deus oculto na natureza e na alma. Procurava-se, então, interpretar os "sinais de Deus" nos fenômenos naturais ou nos movimentos da alma. Por isso, os pietistas produziram uma grande quantidade de diários íntimos e cartas edificantes. Procurava-se também vaticinar o futuro, abrindo a Bíblia a esmo e lendo um versículo que manifestaria o futuro, ou a vontade de Deus.

Cabe um paralelo. Enquanto para o iluminismo o mundo era uma grande máquina que a luz da razão podia compreender, para o pietismo, em contraste, o universo era um grande ser vivo, cuja alma era o próprio Deus. A luz não seria a razão, e sim a beleza do universo, definida como esplendor da alma universal.
O misticismo anti-racionalista do pietismo produzia uma aversão a todo formalismo dogmático e litúrgico. Levava a rejeitar toda igreja constituída, toda institucionalização e hierarquia.

Por isso, os pietistas preferiam reunir-se nas casas, a fazê-lo nas igrejas. Em suas reuniões, lia-se a Bíblia, cantavam-se hinos sacros, incentivavam-se as pessoas mutuamente com discursos piedosos. Nessas reuniões não havia chefes ou presidentes, mas sim um círculo de elementos iguais, no qual o Espírito se manifestava livremente: Estas células constituíam pequenas igrejas na Igreja, "ecclesiolae in Ecclesia". Igualitarismo e ecumenismo eram notas características do pietismo.

Continua no próximo artigo postado.

Romantismo Alemão ( 4° Post) - veio religioso

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Cabala


B. O veio religioso


Introdução


Georges Lefebvre (um francês historiador , mais conhecido por seu trabalho sobre a Revolução Francesa e camponeses vida, ele cunhou o termo " história vista de baixo ", que mais tarde foi popularizado pelos historiadores marxistas britânicos), comenta, em sua obra sobre a Revolução Francesa, a importância do misticismo na Alemanha:

"Não foi um acaso, porque em nenhum país o misticismo reinava tanto. Ele anima o luteranismo e, pelo pietismo e os irmãos morávios, há filiação entre Boehme, o sapateiro teósofo do século XVII e os românticos" (Georges Lefèbvre - La Révolution Française, PUF, Paris, 1951, p. 613).

E, mais adiante, falando da filosofia dos românticos, Lefèbvre afirma:

"Eles esboçaram uma filosofia que jamais tomou uma forma coerente e sistemática (...) eles conceberam inicialmente o mundo como o fluxo inesgotável e perpetuamente mutável das criações da força vital; sob a influência dos sábios e de Schelling (filósofo alemão, um dos representantes do Idealismo alemão, assim como Fichte e Hegel), eles aí introduziram uma "simpatia universal" que se manifestava, por exemplo, na afinidade química, no magnetismo e no amor humano; as efusões religiosas tendo-os tocado, eles acabaram por tomar de empréstimo de Boehme a idéia de Centrum, que nada mais é que a alma do mundo e princípio divino. De todo modo, é o artista de gênio que ele, só pela intuição ou mesmo pelo sonho e a magia, entra em contacto com a realidade verdadeira e, nele, esta experiência misteriosa se transforma em obras de arte. O poeta é um sacerdote e esta filosofia se remete ao milagre" (G. lefèbvre, op. cit. pp. 614-615).

Jacob Boehme

Lefèbvre liga, pois, o Romantismo a Boehme e ao pietismo. Jacob Boehme (1575-1624) foi um sapateiro luterano que cresceu em meio às disputas que opunham místicos e alquimistas à ‘ortodoxia luterana’. Embebeu-se das doutrinas dos que ele chamava "altos mestres": Paracelso, Franck, Shwenkfeld, Valentim Weigel, e de outros autores alquimistas, astrólogos e místicos. Suas obras expõem as doutrinas que ele teria recebido por meio de visões místicas. Sua primeira obra foi "Die Morgenröte in Aufgang" (A aurora nascente, 1612).

"Aí a gente acha de tudo: mística, magia, alquimia. 'Teologia, filosofia, astrologia', eis o que Boehme quer aí expor".(Alexandre Koyré- La philosophie de Jacob Boehme, Vrin, Paris, p. 34).

A doutrina de Boehme é extremamente confusa e hermética. A mesma palavra tem, em suas obras, os sentidos mais variados. Para o termo 'natur', Alexandre koyré apresenta mais de dez sentidos diferentes. Além disso, Boehme inventa termos cujo significado não expõe claramente.

"O sistema labiríntico de Boehme, embora mais elaborado do que o dos alquimistas, exigiria em si mesmo um volume de comentário" (Ronald D. Gray - Goethe, the Alquimist, Cambridge University Press, 1952, pp. 38-39).

Sua filosofia tem profundos laços com a alquimia:

"Boehme fez mais do que tomar emprestada uma larga parte de seu vocabulário da alquimia. Ele adotou toda a cosmovisão da alquimia que ele desenvolveu em um sistema filosófico".

Em síntese, Boehme ensina, como a Cabala (clique aqui para saber mais), que se deve fazer uma distinção entre a Divindade e Deus. Aquela não seria ser: seria o vazio, o abismo, o nada absoluto, o "Ungrund" (Cfr. Jacob Boehme - Mysterium Magnum I, 22 - trad. de N. Berdiaeff, Ed d'Aujour'hui,Paris, 1978).

Este "Unngrund" de Jacob Boehme corresponde ao Ein Sof da Cabala (é entendida como a Divindade antes de Sua auto-manifestação na produção do mundo) e ao Deus gnóstico de Basílides e de Valentino.

Do Uno, proviriam dialeticamente a Vontade e o Desejo, respectivamente força centrífuga e centrípeta. A Divindade, para se conhecer, projetar-se-ia ad extra, na "Sofia" ou Virgem Eterna, na qual estariam as idéias ou arquétipos de todas as coisas. É quando se criam as coisas que Deus passa a ser, porque só então passa a ter corpo.(Cfr. A. Koyré, op. cit. pp. 355-357; 360-363).

A criação teria sido o resultado de uma queda irracional da Divindade. Deus teria criado Lúcifer, o qual teria corrompido a criação. Então Deus teria feito uma segunda criação.
Logo, o mal, tanto quanto o bem, teria origem divina. O universo seria vivo. A vida seria o grande fluxo, a Tinctur, que, saindo de Deus, se derrama sobre o universo e reconduz tudo a Deus.

No homem, como em todas as coisas, haveria um “grão” divino que o torna um Microthéos. A renúncia ao ser, à individualidade, ao desejo, reconduziria o homem ao estado divino original. Deste modo, o homem seria redentor de si mesmo. Adão reuniria em si o infinito e o finito, o masculino e o feminino. Ele teria corpo, porém não animalidade, e possuiria poderes mágicos. Sua queda teria sido provocada por seu amor à matéria, e, por isso, teria passado a ter corpo material animalizado, teria perdido seus poderes mágicos e sua intuição, além de ter provocado a separação dos sexos.

O quid (“quase”) divino que haveria no homem seria para ele fonte de revelação pessoal. Por isso, ninguém poderia impor dogmas a ninguém. Em matéria de fé, deveriam reinar liberdade, tolerância e ecumenismo. Por isso, a Bíblia deveria ser interpretada livremente.

A verdadeira igreja, para Boehme, deveria ser invisível e pneumática, porque Cristo pode nascer na alma de pessoas de qualquer religião, até mesmo não cristã. Da Igreja espiritual fariam parte todos os que seguissem sua revelação interior, qualquer que fosse ela, desde que praticassem o Amor. A verdadeira Igreja seria a do Amor. Uma pequena notinha aqui: lendo acima todo texto e finalizando com a afirmativa que a "igreja" seria a do amor, não dá para lembrar muitas afirmações daqueles "católicos" que somente vivem a Misericórdia de Deus (uma misericórdia também distorcida), esquecendo que Ele é Justiça e esquecendo principalmente tudo o que a Igreja ensinou e ensina???)

Em todo ser manifestar-se-ia um processo dialético, pois cada coisa seria feita de sim e de não. A felicidade perfeita viria no final da evolução dialética universal, tudo se reuniria num Cristo cósmico, síntese do espírito e da matéria, do bem e do mal, da luz e das trevas, do masculino e do feminino, do tudo e do nada (cfr. A. Koyré - op. cit. pp393-394).

A doutrina de Boehme, claramente gnóstica, tem relação direta com a Cabala e com a Alquimia. Pontos que apresentam nítido caráter cabalístico são:

a) A tese de que se deve distinguir a Divindade do Deus revelado.

b) A concepção de que a Divindade é incognoscível e é, ao mesmo tempo, Nada e Tudo, como o Ein Sof da Cabala.

c) A idéia de que em Deus, como em tudo, há um choque de princípios opostos.

d) A concepção de que na Divindade há um processo evolutivo.

e) A correspondência entre os dez Sefiroth da Cabala e os três princípios e as sete qualidades divinas de Boehme.vf) A idéia de que o mal tem origem na própria essência de Deus.

f) A crença de que, em Deus, há elementos sexuais, masculino e feminino.

g) A afirmação de que o universo é o corpo de Deus.

h) A tese de que o universo é um ser vivo.

i) A afirmação de que Adão era andrógino, e que ele tinha um corpo não material, antes da queda.

j) A idéia de que Adão já havia caído antes da existência de Eva.

l ) A crença de que foi em conseqüência da queda que Adão passou a ter corpo material, que se deu a separação dos sexos, e que a geração passou a ser por união sexual.

m) O relacionamento do poder mágico com as palavras, assim como o relacionamento do ser com a liberdade.

n) A tese de que a Sagrada Escritura tem um sentido oculto.

Gershom G. Scholem, sem dúvida o melhor conhecedor contemporâneo da mística judaica, diz a esse propósito:

"Não há razão alguma para considerar este relato como mítico; pode-se, aliás, lembrar que, no final do século XVII, um outro adepto da mística de Boehme, Johann Jakob Spaetch, ficou tão impressionado pela afinidade existente entre esta e a Cabala judaica que ele se converteu ao judaísmo". Por outro lado, Scholem afirma que existe "de toda evidência" uma correlação entre as idéias de Boehme e as da cabala teosófica, representada por uma linha de pensadores que ia de Avraham von Franckenberg (seu contemporâneo e biógrafo) até Franz von Baader (1765-1841) (Gerhard Wehr - "Jakob Boehme" in Cahiers de l'Hermétisme, Albin-Michel, paris, 1977, p. 100).

A influência das doutrinas de Jacob Boehme na religião, na filosofia e na arte foi muito grande. Porém, interessa-nos agora tratar apenas de sua influência no campo religioso.


Continua no próximo artigo postado.

Romantismo Alemão ( 3° Post) - veio esotérico

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

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II - Os veios originais do Romantismo Alemão

Estudando as origens do Romantismo alemão, podemos distinguir três veios formadores principais:

A. o veio esotérico
B. o veio religioso
C. o veio filosófico

Esses três veios conduzem a um nome e a uma doutrina. O nome é o de Jacob Boehme (clique para saber mais). A doutrina é a da Gnose, quer na sua forma cristã, quer na sua forma judáica, que é a Cabala.

A. O veio esotérico

Auguste Viatte (doutor nas relações catolicismo/romantismo) considera que há vários romantismos, com fontes diversas, mas de todas essas fontes participou o Iluminismo, amalgamando-as num todo equívoco e bizarro. Vulgarmente se entende por Iluminismo o sistema filosófico racionalista, que dominou largas camadas do mundo cultural e político no século XVIII.

Por outro lado, são conhecidos como "iluminados" os membros da seita secreta fundada por Adam Weishaupt ( a "Ordem dos Perfeitos" mais conhecida como Illuminati. Ensinava que existia uma iluminação racional, fora e acima da fé, acessível a qualquer pessoa, e poderia levar a uma maior perfeição).

Contra a monopolização do título de iluminados aos defensores de Weishaupt, já no século XVIII, protestavam Joseph de Maistre e Kircberger. Para este último, iluminados eram, propriamente, os esclarecidos por luzes ou graças divinas e que compreendiam as limitações da razão.

"A palavra iluminado significava originalmente um homem cuja razão e conhecimentos naturais eram retificados, sustentados, esclarecidos e aperfeiçoados pelo Espírito Santo; tais haviam sido os Apóstolos, tais eram todos os verdadeiros santos da Igreja cristã, tais tinham sido e tais são ainda todos os homens efetivamente religiosos, que são esclarecidos pelo alto, na proporção da pureza de seu coração e do sentimento profundo da insuficiência e dos limites de sua própria razão" (Carta de Kirchberger a Marsanne, em 1 / XI / 1796, citada por A. Viatte, op. cit. pp. 7 e 8).

Kirchberger afirma que os inimigos da religião, para confundir, começaram a chamar de Iluminados os visionários que, por vezes, eram de boa fé. A seguir, charlatães e impostores, do tipo de Cagliostro (foi um viajante, ocultista, alquimista, curandeiro e maçom do século XVIII), se arrogaram esse título, para enganar incautos. Mas, piores que todos eles foram os racionalistas, inimigos da religião, que adotaram o nome de iluminados, embora não cressem na iluminação sobrenatural, no caso os Illuminati.

Jacques D'Hondt dá uma pequena lista destes iluminados da baviera, da qual fazem parte, entre outros, os nomes de Herder, Wieland, Goethe, o futuro Padre redentorista Zacarias Werner, o Conde Stolberg, que se tornou, depois, devoto de Anna Katharina Emmerick e amigo do Bispo Sailer, Pestalozzi, Mozart, Dalberg, Mirabeau e Taleyrand.

O Iluminismo verdadeiro seria, pois, segundo Kirchberger, o religioso, aquele que reconhece que a verdadeira luz que ilumina e guia o homem vem de Deus e não da razão. Não se confunde, porém, essa iluminação sobrenatural com a de nenhuma confissão religiosa particular. Acreditavam os "iluminados" que em qualquer religião se poderia receber a iluminação divina.

"O iluminismo não se reduz ao ecletismo ( busca a conciliação de teorias distintas), mas historicamente, ele permanece inseparável dele, como, aliás, toda teosofia" (Antoine Faivre - L'ésotérisme au XVIII ème siècle en France et en Allemagne, Seghers, Paris, 1973, p. 62).

Depois do ecletismo, a segunda nota do iluminismo foi o esoterismo.

Esses iluminados consideravam-se possuidores de uma doutrina recebida ou diretamente de Deus, ou por meio de uma longa tradição imemorial, que se transmitira secretamente através das idades:

"Ciência de Deus, luz vinda do alto: a etimologia nos dá a melhor definição da teosofia e do iluminismo. Os místicos que professam essas doutrinas acreditam possuir, por uma revelação direta, os segredos do mundo superior; a "inspiração", e mais freqüentemente, a associação secreta os caracterizam: "todos esses homens, pouco satisfeitos com os dogmas nacionais e com o culto recebido, entregam-se a pesquisas mais ou menos ousadas sobre o cristianismo que eles chamam de primitivo" (Joseph de Maistre "Quatrième chapitre sur la Russie", Oeuvres, VIII, 329).

Mais do que por qualquer outro autor, a teosofia dos iluminados e dos românticos foi influenciada por Jacob Boehme. O sapateiro místico de Gorlitz marcou muito especialmente o esoterismo martinesista - (de Martines de Pasquallys) - e o chamado martinismo do "filósofo desconhecido", Louis Claude de Saint Martin, que traduziu as obras de Boehme para o francês e as fez repercutir depois nos ambientes esotéricos alemães, especialmente através de Franz von Baader.

Rol dos principais temas e teses mais comuns tratados e defendidos por esses autores:

a) Filosofia "analógica", isto é, que vê uma correspondência mágica entre Deus, o universo e o homem, de tal modo que o homem seria um microthéos, enquanto Deus e o universo seriam um macro-antropos.

b) Concepção de uma Igreja espiritual, mística, formada por todos aqueles que aderem à tradição esotérica. As igrejas estruturadas seriam meros veículos esotéricos para conduzir os iluminados à verdadeira Igreja espiritual esotérica, ecumênica e anti-dogmática.

c) Teosofia. Preocupação e pretensão de conhecer o processo de vida da Divindade.

d) Conhecimento da verdadeira natureza divina do homem: no homem, segundo eles, há uma partícula ou centelha divina (a "Fúnkenlein" de Mestre Eckhart).

e) Concepção de que a cosmogonia foi um processo resultante de uma queda da própria Divindade.

f) Crença de que houve uma Idade de Ouro inicial.

g) Crença de que o primeiro homem teria tido um corpo espiritual, que era andrógino e divino. Este Adão primevo se reproduziria espiritualmente e não por via sexual.

h) Crença de que o primeiro homem, como Deus, sofreu uma queda que o materializou, dando-lhe um corpo sexuado e aprisionador da partícula ou espírito divinos.

i) A queda, além de materializar o homem, sujeitara-o ao espaço e ao tempo, assim como o tornara escravo da natureza e da razão que o enganava, pois fizera com que perdesse a intuição divina, a qual identificava Deus, o universo e o homem.

j) O mundo seria corpo e prisão da divindade em perpétua evolução, à qual se seguiria o processo histórico, revelador da Divindade. Deus se reconstituiria no final do processo histórico.

l) Deus se revelaria no coração de cada homem, independentemente da religião a que pertencesse. Daí a valorização da mística e do inconsciente como fontes de revelação.

m) Por trás da letra da Sagrada Escritura, haveria uma doutrina oculta, à qual se acederia por meios místicos, iniciáticos ou cabalísticos.

n) O homem teria poderes ocultos, que lhe permitiriam pôr-se em contato com a Divindade e transformar magicamente o mundo. A Alquimia seria um desses meios.

o) No final do processo histórico, dar-se-ia a reintegração do homem na Divindade, a recuperação da perfeição original e a reconstituição da Idade de Ouro ou Idade do Amor, em que todos seriam um. Só então o homem e a natureza seriam redimidos. Aceitava-se ainda a apocatastasis, ou redenção universal, inclusive do demônio.

p) A redenção do homem e da Natureza dar-se-iam não por uma graça sobrenatural, mas pelo desenvolvimento de potencialidades imanentes ao Universo e ao ser humano. O homem seria salvador de si mesmo, o redentor que se auto-redime.

q) Seria preciso espiritualizar a matéria para redimi-la, já que ela era espírito cristalizado, e o espírito, matéria sublimada.

r) Dialética. Todo o processo da evolução divina, assim como a evolução e o processo histórico seriam dialéticos, porque a Divindade e o ser seriam constituídos de princípios contrários e iguais. Segundo Jacob Boehme, o ser seria formado de sim e de não, ao mesmo tempo, e o sim seria idêntico ao não.

Este elenco de idéias esotéricas e iluministas, embora fosse ensinado de modo vago, e, às vezes, disparatado, forma um sistema bem conhecido. E este sistema tem o nome de Gnose. Todas essas teses, outrossim, podem ser encontradas nos autores românticos, e são elas que fazem do Romantismo um movimento gnóstico.

Continua no próximo artigo postado.

Romantismo Alemão ( 2º Post)

domingo, 26 de dezembro de 2010

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O conhecimento de si mesmo significava o conhecimento do "infinito subjetivo em si", isto é, do divino no homem, exatamente como diz a Gnose, e este era o ponto de partida do Romantismo. Ora, este vínculo entre o conhecimento do infinito no homem e romantismo dá a esta corrente artística um tonus religioso. Por essa razão, Ricarda Huch afirma que, para os românticos, a arte seria de fato "mística inconscientemente aplicada", e dessa asserção só não aceitamos o termo 'inconscientemente', pois muitos românticos tinham clara consciência de que visavam ter uma experiência mística que lhes daria um "conhecimento absoluto".

Este conhecimento absoluto e salvador seria capaz de reconduzir o homem ao estado de inocência superior, ao estado de Adão no Paraíso:


"Neste sentido, é muito típico o ensaio de Kleist sobre as marionetes, onde se diz que o homem, quando se mirou pela primeira vez no espelho, reconhecendo a si mesmo, perdeu a inocência. Agora, ele quer descobrir o caminho de volta. Para tanto, precisa comer mais uma vez da árvore do conhecimento infinito e alcançar de novo, pelo outro lado, o paraíso da inocência, de uma segunda inocência. (...) O grande sonho dos românticos é a inocência, a segunda inocência que englobe, ao mesmo tempo, todo o caminho percorrido através da cultura, isto é, uma inocência que não seria mais a primitiva, a do jardim do Éden, mas uma inocência sábia. É a famosa criança irônica de Novalis, um dos grandes símbolos do movimento romântico" (Anatol Rosenfeld / J. Guinsburg - "Romantismo e Classicismo" in O Romantismo, org. J. Guinsburg, São Paulo, Perspectiva, 1978, p. 274).


Definir o indefinível, conhecer o incognoscível, obter um conhecimento absoluto e salvador, um conhecimento redentor da Natureza e do homem, capaz de conceder a vida eterna e o retorno à inocência primeira, estas são fórmulas que demonstram bem o parentesco doutrinário direto que o Romantismo tem com a Gnose.


De fato, a Gnose pretende ser exatamente o conhecimento do incognoscível, isto é, o conhecimento do Ser Absoluto, Deus, e o conhecimento do processo vital da divindade (Cfr. Hans Jonas - La religion gnostique, Paris, Flammarion, 1978, p. 371). E, tanto quanto o Romantismo, a Gnose pretende ser um conhecimento absoluto e salvador. Algumas citações podem comprová-lo:


"(...) a gnose (do grego Gnosis, 'conhecimento') é um conhecimento absoluto, que salva por si mesmo, ou que o gnosticismo é a teoria da obtenção da salvação por meio do conhecimento" (Henri-Charles Puech - En quête de la Gnose, Paris, Gallimard, 1978, Vol. I,p. 236).


"Não é arbitrário de colocar um conceito geral de Gnose (como) 'conhecimento' salvador" (Serge Hutin - Les gnostiques, PUF, Paris, "Que sais-je?, 1970, p. 8).


Por sua vez, Robert M. Grant confirma essas afirmações ao dizer:


"...este é o primeiro ponto e o mais importante da definição do gnosticismo: uma religião que salva pelo conhecimento; conhecer, para eles, é essencialmente se conhecer, reconhecer o elemento divino que constitui o verdadeiro Eu" (Robert M. Grant - La Gnose et les origines chrétiennes, Paris, Seuil, 1964, pp. 18-19).


Estas palavras também se aplicam perfeitamente ao Romantismo. Veja-se, por exemplo, como um pensamento de Friedrich Schlegel parece um reflexo delas:

"Tornar-se Deus, ser homem, formar-se, são expressões sinônimas" ("Diventar Dio, essere uomo, formasi sono espressioni sinonime". G. Lukacs - Die Seele und die Formen, Berlim, Luchterland, 1971, p. 71-73 apud M. Puppo, op. cit., p. 276).


Denis de Rougemont dá um nome a essa "spilt Religion":


"A exaltação da morte voluntária, amorosa e divinizante, eis o tema religioso mais profundo dessa nova heresia albigense que foi o romantismo alemão" (Denis de Rougemont - op. cit. p. 204).


Embora possam existir outras interpretações, não é arbitrário, ou improcedente, concluir com Simone de Pétrement que o Romantismo foi uma forma de Gnose.

* Desejo aqui fazer uma observação: este conhecimento romântico e gnóstico dá-se por esta "viagem" interior, por "revelações" místicas e não se trata de um conhecimento baseado num estudo sério sobre qualquer assunto. É algo intrínseco ao "eu divino", que segundo o romantismo e a gnose todos os homens trazem dentro de si.

Continua no próximo artigo postado.

Romantismo Alemão.

sábado, 25 de dezembro de 2010

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Salve Maria!

Resolvi fazer um apanhado sobre o Romantismo Alemão, pois dele certos aspectos estão presentes entre alguns que se dizem da direita dentro de nossa amada Igreja.

A uns 13 anos atrás eu li um livro de nome "Mística Cidade de Deus" (de Maria de Ágreda) que me causou muita estranheza, e apesar de na época não conseguir entender por que, eu não gostei da leitura.

Tempos depois ouvi falar sobre Anna Katharina Emmerick  e por tantos elogios que esta mulher dita  "santa", fiquei curiosa por ler seus escritos e tive a infelicidade de ler "Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus". Nunca tinha lido tantas barbaridades juntas em um só livro! Achei que eram "revelações" demais para uma só pessoa, e coisas que pareciam ir contra a doutrina Católica, mas que mesmo assim encantavam seus leitores.
Como eu não tinha o conhecimento para firmar em fatos meu desinteresse e porque não dizer, meu repúdio  por estas "videntes" e seus escritos, guardei esta aversão somente para mim.

Este ano de 2010, no mês de agosto, tive a alegria de poder ir ao Congresso da Montfort e para minha surpresa um dos assuntos era justamente estas "videntes" e seus livros prá lá de gnósticos! Então pude entender que minha estranheza diante estes textos tinham total fundamento.

Mas entendam que os ramos do romantismo não atingem somente a direita Católica, pelo contrário, tem muito deles em vários seguimentos, inclusive entre os progressistas. Os textos que irei expor no decorrer dos dias serão a prova do que falo, e estes textos são uma adaptação dos textos do Professor Orlando Fedeli!

Falemos um pouco sobre o ROMANTISMO ALEMÃO, e esta imagem abaixo é Goethe, um dos principais nomes do romantismo na Alemanha.

O Romantismo Alemão surge num contexto de resistência ao movimento Iluminista francês. A crítica é ao modo excessivamente racionalista e materialista de conceber o homem e o mundo que gera reduções positivistas. Por isto, o combate ao excessivo racionalismo e submissão ao método, que são características da filosofia analítica.
Esta forma de pensar (filosofia da linguagem), que é característica de um dos principais autores da filosofia da linguagem romântica alemã teve, entre outras, conseqüências para o pensamento político. Herder afirmou o caráter próprio de um período histórico ou civilização. Seria reducionista a atitude de procurar regras universais. Para explicar o pensamento de um povo é preciso se situar no momento histórico particular daquela sociedade. A Herder se atribui as noções relacionadas ao nacionalismo, historicismo e Volksgeist (espírito da nação), bem como se ressalta a sua liderança na "romântica revolta" contra o racionalismo e a fé na onipotência do método científico.

I – Conceito de Romantismo
Romantismo e Gnose

O conceito de Romantismo é nebuloso e quase inapreensível. Ele tem algo como o esgarçar das nuvens. Seus contornos são pouco definidos.

"O Romantismo não tem dogma, nem princípio, nem objetivo, nem programa, nada que se situe dentro de um pensamento definido ou de um sistema de conceitos (...) O Romantismo é uma atitude vital de índole própria e nisso reside a impossibilidade de determinar conceptualmente a sua essência" (Nicolai Hartman - A Filosofia do idealismo alemão, Lisboa, Gubelkian, 1983, pp. 189-190).

Mesmo os autores considerados fundadores do Romantismo não estavam de acordo com a sua essência, sendo pouco claros e, às vezes, contraditórios nessa matéria (Cfr. Mário Puppo- Il Romanticismo, Roma, Sudium, 1967, p. 10). Friedrich Schlegel, um dos líderes e fundadores da escola romântica alemã, escrevendo a seu irmão, August Schlegel, disse:

"Não posso enviar-te a minha interpretação da palavra "romântico" (...) ela tem 125 páginas de extensão" ("Non ti posso mandare la mia interpretazione della parola 'romantico' (...) essa è lunga 125 fogli" - apud Ladislao Mittner - Storia della letteratura tedesca, 'Dal Pietismo al Romanticismo, 1700-1820', Torino, Giulio Einaudi, 1977, p. 699).

Albert Béguin, interrogando-se sobre o Romantismo alemão, diz que recorreu:

"... às inumeráveis obras em que a crítica alemã, há alguns anos, se esforça por dar uma fórmula do romantismo, muitas análises e vistas, profundas, vivas, perspicazes são encontradas nas páginas desses livros. Mas a síntese soberana que definiria sem reserva o espírito romântico parece se furtar a todas as tentativas" (Albert Béguin - "L'âme romantique et le rêve". Paris, José Corti, 1966, p. XII).

Mittner, tratando desse tema, diz que se coletaram cento e cinqüenta definições de romantismo e que  "... a palavra 'romântico' deve a sua excepcionalíssima e indeclinável fortuna à sua irridescente polivalência; ela tenta, de fato, definir o indefinível (...)" (L. Mittner, op. cit. p. 699. O sublinhado é nosso.).
Eis aí um bom ponto de partida. "Definir o indefinível", tal seria o escopo do Romantismo. Portanto, já que só se pode definir o conhecido, ele pretende "conhecer o incognoscível". Ambas as formulações são bem próprias dessa escola, por sua natureza paradoxal ou, mais precisamente, dialética.
O conhecimento do incognoscível daria ao homem o saber absoluto, um poder mágico que lhe permitiria redimir-se e redimir a natureza. Seria, pois, um conhecimento salvador.

"Certamente, os românticos não crerão também que uma simples acumulação de fatos, devidamente constatados, conduza ao saber supremo; mas, eles manterão a esperança de obter um conhecimento absoluto, que, para eles, será mais e melhor do que um simples 'saber': (será) um 'poder' ilimitado, o instrumento mágico de uma conquista e mesmo de uma redenção da Natureza. Para eles, tratar-se-á de um conhecimento do qual participarão não só o intelecto, mas o ser inteiro, com suas regiões as mais obscuras e com aquelas que ele ainda ignora, mas que lhe serão revelados pela poesia e por outros sortilégios" (A. Béguin - op. cit. p.5. O sublinhado é nosso).

Continua no próximo artigo postado.