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A primeira missa

quinta-feira, 21 de abril de 2011

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Todos que possuem rudimentos de iniciação da Sagrada doutrina sabem que foi na Quinta-feira Santa, véspera de sua morte na cruz, que o Cristo Nosso Senhor instituiu o sacramento da Eucaristia (Mt. 26, 20-25); (Mc. 14, 17-21); (Luc. 22, 14-20); (Jo. 13, 18-30) e (1 Cor. 11, 23-26).

Parece-me, todavia, que é pouco dizer que todas as passagens acima referem-se apenas à instituição da Sagrada Eucaristia. Na verdade o que Jesus fez na Ceia, que ardentemente desejou comer com seus discípulos e amigos (Jo. 15, 14) foi não somente o comovido anúncio da traição (Jo. 13, 21) de um dos apóstolos; não somente a despedida e o anúncio de sua volta ao Pai; não somente a prevenção do ódio do “mundo” que odiará os apóstolos porque primeiro a Ele mesmo odiou; não somente o veemente apelo à permanência de todos os galhos da videira ao tronco; não somente o “novo mandamento” de amarem-se uns aos outros “como Ele os amou”; não somente a promessa do Espírito Santo; não somente para prometer que dentro de pouco tempo não mais o veriam, mas logo após outro pouco tempo o veriam; não somente para lavar os pés dos apóstolos e diante deles elevar ao Pai a oração sacerdotal que é certamente o ponto mais alto do ensinamento evangélico – mas principalmente Jesus reuniu-se aos discípulos, para diante deles pela primeira vez celebrar o verdadeiro sacrifício redentor, apresentado de um modo velado, sacramental, quanto à vítima.


Sabemos que são três os modos do mesmo e único sacrifício redentor. Na ordem do tempo o primeiro se realizou na ceia, onde o sacerdote era o próprio Cristo e a vítima foi Ele mesmo, mas presente sacramentalmente no pão e no vinho. Depois dessa primeira missa do mundo, o Sacrifício culmina na Cruz onde Jesus é ao mesmo tempo o oficiante e a vítima que derrama Seu sangue para nossa Salvação. O terceiro modo do sacrifício é o da Santa Missa em que tanto o oficiante como a vítima estão escondidos no sacramento: e esse modo se repetirá, se difundirá, e assim permitirá a todos os fiéis, até o fim do mundo, o espetáculo do Sacrifício Salvador, e o contato de todas as dores humanas com a dor da divina Vítima.

Na ordem da precedência ontológica a Cruz é, retroativamente na ceia, e prospectivamente nas missas, a usina do transbordamento de graças salvíficas. Nosso Pai quis deixar-nos a Paixão do filho escondida na tranqüilidade da Santa Missa. Servindo-me de um verso de Wordsworth eu diria que “Mass is passion recollected in tranquility”.

Mas a todos nós convém reler e meditar os evangelhos da Paixão, para observar que a Ceia tem uma tensão trágica, de tal espécie e tamanha magnitude, que nos autoriza a ver nessa primeira “apresentação” do Sacrifício uma intensidade terrível de dor moral de Nosso Senhor. O apóstolo e evangelista João diz: “Dito isto, turvou-se Jesus em seu espírito, e demonstrando (essa aflição) disse: “Em verdade, em verdade vos digo que um de vós me atraiçoará”. Todos se perturbaram, Pedro gabou-se e mereceu o anúncio de que três vezes negaria o Senhor.

Agora atentai, amigo leitor, nesta evidência que de tão evidente se tornou obscura à nossa cansada e turvada inteligência das coisas de Deus: há hoje todo um esforço de covardia e traição universal para conjurar o insuportável espetáculo da Cruz. E então, para fugir à visão daquele divino pára-raios da cólera divina, para tirar os olhos do sangue, inventaram o recurso de fazer a missa derivar mais da ceia do que da Cruz, e com esse estratagema malicioso e parvo, fizeram da Santa Missa um espetáculo de feira, aonde a assembléia dos fiéis é aquele “respeitável público” dos palhaços de circo. Não há nada mais infinitamente distante da Ceia, onde o Cristo Jesus começou a padecer moralmente, para continuar no horto e terminar na Cruz, não há nada mais afastado, quase digo mais oposto da Ceia, do que essa difundida molecagem de missa jovem, onde, com o pretexto de cativar os jovens, e o intuito inconsciente de pervertê-los, a Santa Missa se transforma numa boate.

Nem é de boa doutrina por na Ceia do Senhor uma tônica de amizade alegre. O mundo frívolo e cheio de pruridos não suporta a tensão de gravidade do cristianismo que nunca fez questão de ganhar adeptos e salvar almas com convescotes e patuscadas. A Ceia do Senhor – por pouco que meditemos – é o mais terrivelmente trágico da história. Do lava-pés até a oração sacerdotal domina de tal modo a figura de Um (modo que toda a iconografia não consegue transmitir) que é o caso de perguntarmos se o abuso das concelebrações (que de permitidas passaram a obrigatórias) não é um índice de depressão espiritual de nosso tempo. Pior ainda é a solicitude tola com que tantos padres inculcam aos fiéis a idéia que a missa é, antes de tudo, um encontro comunitário divertido, e que a atitude correta do fiel é a de ter viva, cálida e até olfativa consciência de que está numa comunidade.

Esses frutos da epidemia de estupidez não reparam em duas coisas que caracterizam a ceia: uma é o fato de só estar presente o colégio apostólico ao qual Jesus dirá: “fazei isto...” O povo de Deus que nesse tempo já contava centenas de cristãos não foi convidado. Torna-se evidente o modo de crescer da Igreja: de cima para baixo. E o princípio da singularidade, que se aplica a tantos mistérios cristãos, ganha aqui um relevo especial, de onde tiramos a verdadeira atitude do fiel na Santa Missa: a consciência de estar na presença de um Deus imolado deve prevalecer e ofuscar todas as lembranças humanas. As intenções que trazemos, e que é bom trazer, devem ser esquecidas, nossas aflições devem ser esquecidas, para que todas as nossas faculdades se concentrem na presença de Cristo Nosso Senhor. A quinta-feira santa nos ensina isto com especial vigor.


Gustavo Corção

Marcos da eternidade

quarta-feira, 20 de abril de 2011

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No torvelinho das horas e dos dias convém considerarmos, vez por outra, os marcos imóveis, os sinais da eternidade. Vale a pena parar a carreira dos sucessos, e com voz de poesia perguntar às árvores espantadas, às pedras retraídas, às casas que ficam atrás dos portões de ferrugem e das janelas estremunhadas, se porventura entendem a avidez que nos impele, que nos compele a perseguir um bem que logo perde o sabor quando alcançado; se entendem essa fome que se muda em fastio ou náusea à medida que morre o momento que passa, continuando insaciável para os sonhos de fumaça impossível.

A árvore permanece, posto que aos ventos ofereça uma mobilidade dançante e cantante; a pedra permanece; o velho portão, malgrado a ferrugem permanece. São essências tranqüilas e bem ritmadas. A seu modo humilde imitam e refletem o Imutável. Sendo o que são, com simplicidade robusta, trazem marca daquele que é o que é. Nós, ao contrário da árvore e da pedra, vivemos a fugir do que somos. Nós que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, fugimos de Deus e portanto de nós mesmos quando buscamos o absoluto no torvelinho das coisas. E assim, pelo sopro do espírito e pelo ímpeto de liberdade que nos faz mais próximos de Deus, tornamo-nos mais distantes e assim vivemos a correr, a fugir do que temos, a buscar o que nunca teremos, e a assistir à decomposição do que tivemos. Marta, Marta, de muitas coisas te ocupas, mas uma só é necessária...

Vale, pois, a pena, parar o frenesi e considerar os marcos de eternidade que a Igreja nos oferece nos tempos da Paixão. Amanhã ou depois os cuidados voltarão; hoje, detenhamo-nos diante da pedra de Pedro, da casa de Deus, a árvore do Crucificado. Amanhã ou depois voltaremos às nossas agitações, à perplexidade da política nacional e internacional, às notícias da cidade e do mundo, a tudo isso que será vaidade das vaidades e perseguição dos ventos, se não soubermos trazer para esses problemas dispersos o critério fundamental que os transfigura em caminhos de Deus.

Hoje estamos no limiar da Semana Santa, preparando nosso olhos para o quadro da vitória do Cristo, que a Igreja nos oferece com sinais moldados nas coisas peregrinas, e que nos deixa entrever, no outro lado do espelho, o país maravilhoso da divina esperança. A obra de Cristo, espécie de usinagem operada sobre a dor e a morte, e por conseguinte sobre o que constitui o máximo espanto do mundo, abre-se agora num estuário de glória. Assistiremos, durante a semana, à representação do drama onde se vê passar um Deus apaixonado. O Homem das Dores, irreconhecível para os que o flagelaram e o esconderam atrás da derisão, e todavia o mesmo coração vulnerado do Cântico dos Cânticos.

O cabo da travessia desse mar vermelho, o círio pascal será para nossa vida um diapasão de luz. São Bento ensina que a vida do monge deveria ser uma Quaresma contínua. A nossa também. E essa Quaresma deveria ser paixão e a paixão deveria ser morte; e a morte deveria ser Páscoa. A travessia, a transmutação que Deus espera de nós é uma conversão que vá deixando o que menos somos em favor do que verdadeiramente somos por dom de natureza e pelos dons da graça. De claridade em claridade, se formos dóceis, iremos caminhando por atalhos de dores, para o país do amor perfeito que tem bandeira de fogo em mastro de cera.

Parece-vos ingênuo – ó leitores tristes - o quadro da Sião Gloriosa que a Igreja desdobra? Parece-vos estampa infantil a santa liturgia? Ou quem sabe se tudo isto não vos lembra apenas costumes obsoletos, cerimônia que os etnólogos explicam, ritos que os séculos científicos superaram? Por vós e por mim, receio que a simplicidade do quadro seja chocante, e não consiga atravessar a sebe de nossas complicações. Nós somos complicados; Deus é simples. Nós somos adultos e vividos; Deus é mais moço do que nós. Nós somos espertos, sinuosos, ardilosos; Deus escolheu para si as figuras do cordeiro e da pomba. Diz-nos a fé que ali, na outra margem do mar vermelho, onde brilha o círio da vitória, os enganos e tribulações terão desenlace de prodígio; que receberemos, em medidas de alqueire calcados, recalcados e transbordantes, o que não tivemos a audácia de pedir; que serão consertadas as contradições e nossos tristes amores; que a lágrima vira jóia; que a chaga vira for. Diz-nos a fé que naquele país de maravilhas do outro lado do espelho, teremos a paz.

Parece-vos ingênua – ó homens tristes – a linguagem da fé? Parece-vos insípida a comida da esperança? E quem pergunta poderá se gabar de melhor saber e de melhor servir? Não é a descrença que mais me espanta. A descrença, se me permitem os apologetas, tem certa lógica na sua retratação, no seu encolhimento, no seu propósito de não levar longe demais as investigações que podem terminar em incêndio. A descrença sob esse ponto de vista, é mais razoável, mais compreensível do que a crença imperfeita que se detém, que se encolhe, que se retrai, quando nela, na Fé, tudo pede expansão e conseqüência.

Talvez fosse melhor mudar de tom. A segurança da fé e a certeza da esperança seriam mais edificantes do que o título da perplexidade. Talvez fosse melhor, na festa da igreja, procurar pífaros e cítaras para contar o júbilo da alma Cristã no dia da Páscoa do Senhor, em vez de permitir ao velho coração um gemido de cansaço... Deus há de fazer que essa tristeza se converta em alegria e que a alguém aproveite o que a nós nos pesa. E privilégio seu; é ofício de seu Filho transformar a dor em salvação e a morte em vida.



Gustavo Corção

O espírito de Quaresma

sábado, 19 de março de 2011

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Gustavo Corção
A Igreja nos desdobra o maravilhoso panorama das várias lições que vitalmente interessam, ou deviam interessar aos seus filhos, e assim reaviva nas várias estações do ano litúrgico certas noções que deveriam ser companheiras de todos os passos de nossa vida. Assim é a Quaresma. Segundo ensina nosso pai São Bento, a vida inteira do monge deveria ser uma quaresma ininterrupta. Como isto é impossível para os fracos, e como a Regra Monástica, à semelhança da Igreja, é moderada para que os fortes possam dar mais, e para que os débeis não desanimem, representamos nesta quadra do ano o mistério da preparação da Paixão redentora do Cristo, e concitamos nossos irmãos e amigos a aproveitarem esta sabatina que reaviva o espírito de quaresma.

Qual é a lição essencial da quaresma, no que nos diz respeito? A Igreja responde com a liturgia das cinzas, e nós podemos desenvolver a idéia: o que nos cumpre aprender nestes dias, mais do que nos outros, é a doce e santa lição de nossa total dependência nas mãos de Deus. Ou como diria Santa Catarina de Sena, na sua linguagem de sangue e fogo: devemos aprender a lição de nosso nada.

Todo o mundo moderno é desatento, brutalmente desatento ao espírito da quaresma. Um humanismo insolente, grosseiro, agora reforçado com as estridências que se ouvem pela porta dos fundos da Igreja, tenta inculcar no homem uma confiança em si que o deixe esquecido de sua condição peregrinal e de sua destinação última. Vivemos dentro de uma espessa idolatria: todos querem exaltar os valores humanos em detrimento ou com esquecimento de sua total dependência de Deus. O nome de Deus é silenciado, é empurrado para a obscuridade, para que a glória do homem refulja.

Entende-se bem que o homem realize neste mundo, do melhor modo possível, sua instalação, ou melhor, sua afirmação de domínio sobre o mundo inferior. É bela a conquista da Ciência que exalta a razão e a específica superioridade do homem sobre todo o Universo visível. É confortador o progresso técnico que nos assegura um decente conforto neste trem expresso onde às vezes esquecemos a brevidade do tempo. É bela a civilização que realmente enaltece os valores humanos em contraste com a mundo inferior; mas tudo isto só se mantém em ordem razoável se ao mesmo tempo nos lembrarmos de exaltar a glória de Deus e nossa completa e total dependência. O inferior deve submeter-se ao superior: é razoável que o homem submeta os átomos, mas é loucura submeter os átomos e esquecer que devemos nós mesmos nos submeter a Deus.

A própria psicologia moderna, impregnada de empirismo, tem horror a certas categorias espirituais que fogem aos seus quadros. Assim é que combate com todo o seu vigor todos os sentimentos de insegurança. Ora, isto é uma monstruosidade a mais que se pratica neste vale de lágrimas. É claro que devemos ser corajosos, que devemos ser audazes, que não devemos ser pusilânimes, mas daí não se deduz que devamos nos sentir seguramente instalados na vida. Este sentimento é perfeitamente estúpido e grosseiramente anti-espiritual. A alma cristã, com todas aquelas qualidades de bravura e de audácia, sabe que sua vida pende de um fio que está nas mãos de Deus; e desta ciência não tira amargura nenhuma, ao contrário, tira a humildade, a ação de graças, e o infinito amor pelo Ser absoluto a que a todos nos sustenta. E em termos mais próximos da paixão de Cristo, o sentimento de fragilidade e contingência se traduz em vínculo de caridade que nos prende à videira santa, à Cruz em que pomos toda a exaltação e toda a glória.

O grande judeu Egon Friedel, em sua História da Cultura, teve a finura de sentir o valor sobre-humano do sentimento de fragilidade e de insegurança do medieval. O meio social ajudava, a ciência médica estava numa fase infantil e até caricata que levava o grande São Bernardo, que obedecia pontualmente às extravagantes prescrições de um esculápio, dizer com mansa tristeza: "Eu, que no Mosteiro tenho o encargo de dirigir e dar ordens a santos, tenho de obedecer a um asno". Toda essa pobreza de meios tinha impedido o surto do humanismo senhor de si mesmo, e o arguto judeu se admirava da espiritualidade que iluminava todo aquele povo medieval. Eles sabiam que a vida era uma grande aventura, e que a dependência de Deus se fazia sentir em todos os atos de coragem e de abandono, ou de resignação e tristeza.

Progredimos muito em veículos, em máquinas, em produção, mas no momento parece que regredimos em relação ao espírito de quaresma. Sirva-nos isto de incitamento e de lição, e procuremos nós viver mais a fundo essa presença de Deus que produz a humildade agradecida e amorosa.

Gustavo Corção - O que houve no Concílio Vaticano II

domingo, 13 de fevereiro de 2011

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Paulo VI e os protestantes que estavam no Concílio!

Sabe-se de alguma informação a respeito da influência da maçonaria sobre o Concílio?

Da maçonaria não sei. Na década de 70, houve uma denúncia, na França, de que inúmeros cardeais e bispos franceses eram membros da maçonaria. Aqui no Brasil houve um escândalo com o cardeal-arcebispo da Bahia, na época, Dom Avellar Brandão, que celebrou missa num templo maçônico e usou os paramentos maçons.

Quando essa denúncia surgiu na Europa, e a denúncia incluía o cardeal secretário de estado da cúria romana na época, os acusados negaram indignados. Mas as publicações davam até o número de inscrição deles.

Em 1980, houve o escândalo do banco Ambrosiano com o banco do Vaticano, e por aí se viu que o banco do Vaticano era cúmplice e sócio do banco que sustentava a principal loja maçônica do mundo, chamada P2, dirigida por Lucio Gelli, preso pela polícia por causa do escândalo. Lucio Gelli tinha manobras e relações com deputados, generais e políticos do mundo inteiro, comandava uma rede de grandes empresas e levou o banco Ambrosiano à falência com um rombo de 1 bilhão e 200 milhões de dólares. Isso mostrou que as relações do Vaticano com a maçonaria italiana não eram nenhuma brincadeira.

Sobre a influência da maçonaria no Concílio Vaticano II não tenho dados, mas dos protestantes sim. Existe uma famosa fotografia do Papa Paulo VI com seis representantes protestantes. Corção chamou a atenção para o fato de que, atrás do Papa e dos protestantes, pode-se ver uma porção muito grande de bispos participantes do Concílio, todos rindo às gargalhadas; o Papa e seus convidados, não, mas os participantes estavam. E Corção escreveu um artigo perguntando: Mas de que é que eles se riem? Por que estão rindo?, e aí fazia uma série de considerações a respeito.

Mais tarde, foi confirmada a influência desses representantes protestantes. Eles não tinham voto, mas participavam das discussões, prestavam esclarecimentos, distribuíam material, entravam nos assuntos todos, enfim, como se fossem membros do Concílio para expor suas idéias. E assim foi sendo feita a subversão da Igreja...

O ecumenismo e a revolução litúrgica já estavam sendo preparados, mesmo antes do Concílio. Um monge beneditino belga, dom Lambert Beaudouin, dera sinais inquietantes de querer mudar a liturgia e fora censurado por Roma. Ele gostava muito da liturgia oriental, ortodoxa, e quase virou ortodoxo. Ele fundou um movimento litúrgico que, no início, nós recebemos de braços abertos. Até hoje, nossa missa é dialogada em voz alta. O catolicismo, no início do século, era mais praticado pelas mulheres, as beatas. Os homens, quando iam à Igreja, ficavam atrás conversando. Sobral Pinto, em seu tempo, causava comoção porque freqüentava a missa, comungava, ajoelhava-se, e isso não era costume masculino. Mas mesmo as pessoas que iam à Igreja não sabiam bem o que estava acontecendo. Algumas rezavam o terço, que é algo que realmente se pode fazer, desde que se reze com a devida intenção, caso contrário não se está assistindo a missa nenhuma. Nas missas, as pessoas têm de saber o que está acontecendo, o que é aquilo, e participar pelo menos no sentido de oferecer a Deus o Cristo imolado, porque a missa é a reiteração, a apresentação hoje da mesma realidade que aconteceu dois mil anos atrás, a saber, a morte do Cristo na cruz, em que Se oferece ao Pai em remissão dos pecados dos homens. É o mesmo Cristo que está ali presente, o mesmo Cristo que consagra a hóstia e que Se oferece ao Pai. Os fiéis estão presentes para oferecer o sacrifício de Cristo a Deus junto com o sacerdote, e é por isso que, na hora do oferecimento, o acólito segura a casula do sacerdote, significando que estamos ali para isso, para oferecer a Deus um sacrifício pelos nossos pecados e pelos pecados dos outros.

Ora, o movimento litúrgico fora instituído justamente para fazer com que as pessoas tomassem consciência do que estava acontecendo na missa e participassem verdadeiramente dela, mas depois ele extrapolou. Começou-se a estudar a liturgia e os sacramentos, e, em seguida, a fazer elucubrações sobre o sacramento da Eucaristia e sobre o papel do sacerdote, e a sustentar que o povo também é sacerdote, e começaram alguns bispos e cardeais a dizer besteiras.

Essas besteiras se prolongaram e acabaram gerando, nos meios intelectualíssimos da Cúria Romana, compostos de muitos progressistas, um desejo de simplificar a missa, mudar a missa, corrigir a missa — coisa que os católicos jansenistas tinham feito na França no século XVIII. De fato, foi exatamente isso o que fizeram: colocaram as mãos na missa para usar as palavras das Escrituras para ensinar isso e aquilo. Não tem nada que usar a missa para ensinar. A missa é o resultado místico de uma obra mística, de grandes místicos. Primeiro do próprio Jesus e depois os ritos surgiram de grandes místicos da Igreja, que foram, primeiro, os apóstolos, todos santos, depois grandes Papas santos e grandes doutores santos — com isso foi se formando a missa que tem, se não na sua integridade, pelo menos na sua essência, dois mil anos. E quando começaram a aparecer variações que punham em risco a pureza daquele ato litúrgico, o Concílio de Trento, no século XVI, estabeleceu as normas que a missa devia seguir e o Papa, São Pio V, publicou uma encíclica famosa, chamada Quo Primum, proibindo que se tocasse na missa, e estabelecendo as únicas exceções, que eram certos ritos, variantes do rito romano, com mais de 200 anos, mas admissíveis. O Papa proibia que se fizessem modificações na missa dali para a frente, coisa que os progressistas de Roma de nosso tempo não admitiram, e disseram que, se um Papa proibiu, o outro Papa, que tem poder igual, pode "desproibir", e então fabricaram a missa de Paulo VI, que é essa que está aí.

Quando surgiu essa missa, nós, inicialmente, íamos a ela. Claro que procurávamos sempre padres sérios, comedidos, não esses que ficam distribuindo as hóstias na mão como se as tirassem de uma caixa de biscoitos, mas, mesmo com um padre sério, eu me sentia mal. Eu descobri, sem querer, que se esquecesse o padre e fixasse os olhos no Sacrário, eu me sentiria melhor. Passei a fazer isso e voltei a usar o missal antigo. Eu rezava minha missa ali sozinho, fixando os olhos no sacrário, sem tomar conhecimento do que o padre fazia no altar.

Depois que Corção morreu, que monsenhor Lefèbvre morreu e que acabou a revista "Permanência", eu quis deixar uma lembrança disso tudo para meus filhos e netos. Tinha um instrumento precioso, os artigos que Corção escrevia duas vezes por semana nos jornais, em que ele foi cada vez mais deixando a política de lado e se concentrando no debate espiritual e religioso. Eu tinha então um registro, duas vezes por semana, do que acontecia no mundo católico: o que o Papa disse, o que disseram os bispos, fatos que aconteciam e que Corção comentava. Peguei a coleção e o fui seguindo, contando esta história no meu livro, muitas vezes usando trechos do que Corção escrevia, muitas vezes mesclando o tema da crise da Igreja com assuntos políticos. E contei também a divisão que ocorreu no grupo da "Permanência" depois que Corção morreu.

Quando compreendemos que a missa nova era insuportável, começamos a procurar padres que nos dissessem a missa tradicional. Primeiro, encontramos um franciscano, que depois ficou doido, foi para a Europa e se ligou a outro doido que acreditava ser o Papa Gregório XVII. Depois surgiu um padre jesuíta, que nos disse a missa tradicional por algum tempo, mas acabou sendo proibido pelo superior dele, quando soube do que se tratava. Enfim, andávamos atrás de padres que nos dissessem a missa de sempre, inequivocamente católica.

Até que descobrimos um padre holandês com quem fui conversar. Sentei-me ao seu lado no banco da Igreja e perguntei: Padre, me diga uma coisa, o senhor acha que está proibido dizer a missa tradicional da Igreja? E ele me respondeu que não, que não podiam proibir essa missa. Eu disse: O senhor concorda que não pode ser proibida a missa que a Igreja santificou durante vinte séculos? Ele concordou. Nesse tempo, não era proibida. Isso não interessava ao diabo, porque exoneraria as pessoas de sua responsabilidade pessoal. O diabo quer levar as pessoas para o inferno o mais que puder; ele quer que as pessoas sejam cada vez mais enredadas, até que elas também prefiram ficar com a missa nova. Então, eu pedi ao padre que dissesse a missa para nós e ele aceitou. Tínhamos a missa na capela de umas freiras carmelitas, ao meio dia. Depois apareceu um rapaz que conhecia música e tocava gregoriano. A missa ficou uma beleza, as freiras ficaram deslumbradas conosco, com a nossa missa, com a música e com o padre holandês, que fazia sermões muito ingênuos, mas muito bons — sermões de padre de verdade. E nós passamos cerca de quatro anos de felicidade tranqüila, porque para nós isso era o principal da nossa vida.

Depois, perdemos a missa, porque a família de uma das freiras nos denunciou e o cardeal mandou proibir. O padre holandês recebeu a proibição e ficou apavorado, com medo de o cardeal manda-lo de volta para a Holanda, e se recusou a continuar com aquela missa.

Encontramos um outro jesuíta. Meu filho foi pedir a ele que rezasse a missa para nós, ele aceitou, rezou uma vez. Nós entramos pelos fundos, escondidos, para ter a missa. E esse padre, daí em diante, quando eu aparecia na sacristia, ficava apavorado, com medo de ser punido pelo superior. Por isso, quando me via, começava a ficar nervoso.

Outra vez ficamos nós sem missa, e voltamos a correr atrás de padres. Surgiu então um franciscano, depois, um padre de Campos, que vinha de avião dizer a missa para nós na sede da "Permanência".

Até que Corção morreu e foi quando nós perdemos a missa definitivamente e eu resolvi não ir mais à missa de Paulo VI. Metade de nosso pessoal ficou contra nós, porque há uma obrigação de ir à missa aos domingos. Mas eu tomei a decisão de não ir. Muita gente hesitou, mas acabaram tomando a decisão de também não ir.

No domingo, me fechava no meu quarto e rezava meu missal sozinho. Na hora da consagração, eu fazia uma espécie de comunhão espiritual e rezava a missa todinha, de cabo a rabo. Passamos assim algum tempo.


Fonte: Permanência.

"Um sacerdote que não mais crê na Presença Real não pode consagrar validamente ..."

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

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A Reforma Litúrgica
Gustavo Corção

Dos últimos artigos, em que expandi minha admiração pela vitalidade dos católicos franceses, que aos milhares se revezavam na sala Wagram para assistir à Santa Missa não deformada, algum leitor mais afastado e menos informado poderá concluir, receio-o, que toda a polêmica entre tradicionalistas e progressistas gira em torno do novo "Ordo Missae", e que o caso de Monsenhor Lefebvre tem o mesmo centro de gravidade.

Houve efetivamente, no mundo católico, em todo o orbe, manifestações de estupor desde as primeiras festivas irregularidades, fantasias e aberrações avulsas produzidas na celebração da Missa por padres inebriados de novidades.

Esse período de anarquia e de abusos começou antes mesmo do encerramento do Concílio, e tomou vulto nos primeiros anos pós-conciliares. Tínhamos a impressão de um vento de loucura contagiosa dentro das igrejas nas missas dominicais. Quando o altar virou "versus populum", os observadores mais atentos logo notaram nos olhos esgazeados e nos gestos descompassados do padre a exultação de uma descoberta: viam, de repente, um auditório, ou arquibancada que lhes daria, conforme a vocação de cada um, a esperada oportunidade de conferencista eloqüente ou animador de programas. Em termos simples diríamos que, de repente os padres perderam os bons modos, e ficaram empenhadíssimos em produzir movimentação, tumulto, vozerio que, na opinião deles provocaria uma maior participação dos fiéis na missa.

No Brasil a anarquia litúrgica esteve eclipsada a partir de 64 pelas façanhas de Dom Helder Câmara que viajava pela Europa inteira a difamar o Brasil, que tivera a audácia de expulsar os comunistas e de reprimir qualquer movimento desse tipo. Na campanha de Dom Helder, o Brasil perseguia o partido dos pobres.

A partir de 1969, a celeuma em torno da liturgia ganhou nova dimensão provocada pelo novo "Ordo Missae" que se apresentava como coordenação das reformas conciliares. Esta obra que daria à Igreja nova missa, quebrando a secular e bela continuidade da missa codificada e decretada por São Pio V, viria também refrear os abusos e experiências avulsas de cada padre. A cúpula da Igreja reclamava o privilégio de fazer experiências e de introduzir novidades em torno do Sangue de nosso Salvador.

As razões desse misterioso imperativo de remexer as coisas santas foram tiradas do princípio do "aggiornamento" e foram nitidamente reafirmadas na Alocução Apostólica de Paulo VI, de 3 de Abril de 1969, com a qual o Papa promulgava e apresentava aos católicos o novo "Ordo Missae", elaborado por Monsenhor Annibal Bugnini, sob a atenta vigilância de quatro ou cinco "observadores" protestantes. O Cardeal Ottaviani escreveu ao Papa uma carta patética que não foi lida com a atenção que merecia.

No mundo inteiro ergueu-se uma campanha ardente orquestrada por clamores de vários timbres, mas toda ela motivada pelo mesmo amor à santa religião, selada com o Sangue de Nosso Senhor. Os católicos viam com infinita consternação, ou incontida indignação, que a obra de anarquia e destruição cercava a Santa Missa e visava o o alvo do "mysterium fidei": a presença real de Jesus Cristo na hóstia consagrada. A mais maravilhosa das obras de Deus, pela qual teríamos nós, no curso dos dias e dos séculos, a prometida companhia de Jesus; e graças à qual cada um de nós que colhe os frutos da Presença de Jesus, pela força divina desta Presença consegue - vencendo as distâncias e os séculos - estar presente "juxta crucem", naquele dia singular, exemplar, em que Jesus sacerdote celebrou o santo sacrifício da Cruz para oferecer aos homens, pelos séculos e séculos, os frutos dessa árvore.

Nós sabemos que a Santa Missa, se tira da Ceia do Senhor a forma incruenta do mesmo sacrifício, tira da cruz o caráter essencial do sacrifício. Ora, toda a tendência da nova missa composta por homens levianos e incompetentes, e vigiada de perto pelos inimigos da Igreja, era de apresentar a Santa Missa como um ameno convescote presidido por um padre que tudo faz para se despojar desse título que lembra outro Padre. O famoso artigo 7 exibiu à consciência católica aturdida, esta amostra de horrível impiedade: "A ceia do Senhor, também chamada missa (!!?), é a assembléia sagrada ou congregação do povo de Deus reunido sob a presidência do sacerdote para celebrar o memorial do Senhor".

Naquele tempo, ainda não vacinado pela soma de disparates produzidos na chamada "Igreja pós-conciliar", encolerizei-me diante de tal amontoado de asneiras e disse delas, em termos crus, o que pensava e ardentemente desejava clamar, para ajudar os vacilantes. Um bispo, designado pela CNBB para os problemas da liturgia reformada, reclamou publicamente a minha irreverência em matéria grave que vinha de Roma. Outras vozes me acusavam de orgulho e de pretender ensinar o Padre Nosso ao Vigário. Respondi-lhes que nunca me gabei de meu saber, mas logo acrescentei que o triste episódio me dava ensejo de gabar-me de uma modesta mas importantíssima aptidão: eu sei bem distinguir a voz de minha Mãe dos relinchos do Cavalo de Tróia. Preciso explicar que a idéia do Cavalo e de seu relincho acabava de ser lançada num livro de Dietriech Von Hildelbrand?

Esse "ponto 7" era realmente excessivo e provocou tamanho, escândalo, que levou a cúpula da Igreja a corrigi-lo. Na verdade não o corrigiu, remendou-o, introduzindo aqui ou ali a palavra sacrifício que bastou para tranqüilizar as consciências sequiosas de tranqüilidade.

E este pequeno exemplo basta para mostrar ao leitor de hoje, que meus dois adjetivos "levianos e incompetentes" se aplicam aos fautores que, em obra de tão incomparável importância, voltam atrás, rasuram, remexem mais um pouco, e julgam ter dado à obra conjunta um valor e uma dignidade que ela jamais poderá reclamar.

Durante algum tempo e apesar de todas as deformações introduzidas na liturgia da Santa Missa, cheguei a pensar que a permissão Divina cobrira com seu mistério a malícia dos ímpios inovadores, e de algum modo protegera a validade da consagração, sob a condição de ser feita por um padre fiel às intenções da Igreja tradicional, e sobretudo fiel à Fé da Presença Real. Se outros fatores não nos conduzissem irresistivelmente a crer que a existência de tal padre, dentro do contexto pós-conciliar, se torna mais improvável na medida que esse padre aceita e engole tranqüilamente com a atmosfera irrespirável de falsificações, ainda hoje teria a mesma posição.

Um padre moço, assustado e meio escandalizado, perguntou-me se o "ex opere operato" não salvava, mesmo nesses casos extremos, a validade da consagração. Lembrei-me com tristeza do abuso com que, nos tempos de nosso movimento litúrgico, difundíamos essa fórmula quase mágica, e expliquei ao padre que um sacerdote que acabasse de fornicar podia validamente consagrar a hóstia, mas que um sacerdote que não mais crê na Presença Real não pode, porque as palavras que pronunciará para enganar os fiéis, ou enganar-se a si mesmo, são puros sons destituídos de significação,desligados do conceito, e portanto incapazes de dar forma ao sacramento; e além disso parece-me que a aceitação do contexto dessa Igreja pós-conciliar, torna impossível a fidelidade às intenções da Igreja tradicional. Hoje, passados sete anos, milhares de evidências se ergueram em nosso caminho, todas convergindo para a mesma conclusão a que certamente já chegaram os numerosos franceses que enchem a sala Wagram.

Não recusamos o Novo Missal apenas por suas deformações que já bastaram para nos saturar de aflições, recusamos, por amorosa fidelidade à Santa Religião do Deus que se fez homem, toda uma nova religião do homem que se faz deus, que tantos estão engolindo depois de terem engolido a nova missa. Voltaremos em outro artigo aos fatos principais que nos levaram a essa conclusão que me é imposta não por engenhosos raciocínios próprios ou alheios, mas pela luz da Fé.

O Globo, 9-12-76

Salve Maria,

sorte sua Gustavo Corção não estar vivo para ver isto:

Observem o tamanho do Cálice e da Patena.


(...) e isto


O desleixo e o desrespeito com suposto "altar" (Aparecida - SP)

E para finalizar isto

Audácia, abuso, sacrilégio esta "ministra" segurar Cristo como se fosse sacerdotisa; fora estas mulheres e meninas todas atrevidas, porque o Altar é um convite ao sacerdócio e este um convite para os homens! Sem falar de toda deformação desta Igreja e deste suposto "altar" (Curitiba - PR)
Aí vem cretinos a me dizer que isto acima é coisa de gente humilde (...), que Jesus era humilde e o que vale mesmo é o que está no coração!

Será mesmo que é coisa de gente humilde? Ou será coisa de gente que quer se igualar a Deus? Ou pior, quer pisar novamente em Cristo e humilhá-Lo novamente, cuspindo novamente em sua Face?

Meus avós maternos eram paupérrimos; eles tiveram dez filhos e debaixo de muito sofrimento conseguiram criar os dez (...), mesmo faltando muita coisa,  para irem à Missa eles tinham uma roupa especial, roupa pobre, mas especial, afinal eles iriam ao encontro do Senhor! Minha mãe tem a foto da Primeira Comunhão dela; nossa, pela foto dá para perceber o tamanho da pobreza das crianças (...), mas minha mãe estava de meinhas brancas, sapatinho preto, vestidinho rodado e com cachos em seus cabelos; cachos especialmente feitos para a ocasião!

Eles eram pobres, mas sabiam que dentro da pobreza dariam o melhor para Deus! E assim fizeram, e assim me ensinaram!

Outro dia minha mãe dizia, "Tem horas que tenho medo que a Igreja Católica chegue a se acabar" - eu perguntei por que - resposta: "Porque a cada dia a reconheço menos!"

Fiquemos com Deus!